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sábado, 20 de março de 2010

Noite de Cão.


Já te aconteceu teres tanta coisa para fazer ao mesmo tempo e, no final do dia, dares-te conta que não fizeste nada? E depois vais te deitar e não consegues desligar a cabeça, e começas a fazer uma lista mental, enumerando as tuas pendências, e depois levantas, olhas para o relógio, decides que é muito tarde e que não vale a pena começares a fazê-las agora, pois fora da cama tens sono. Mas depois, deitas-te e a lista volta e o sono perde-se entre as tuas preocupações. E quando te dás conta, já é de madrugada e, para além de não teres as tuas pendências resolvidas, não tens sono e os teus olhos doem como se tivesse areia dentro deles. E depois ficas com fome, mas não comes porque comer de madrugada faz mal. Mas o teu estômago ronrona falares que só tu entendes. Aí, levantas para beber um copo de leite frio e comer uma bolacha maria. Abres um pouco a persiana para ver o sossego lá de fora e sentes uma brisa fresquinha refrescar-te o nariz. Metes o copo dentro da pia, porque não queres molhar as mãos às cinco da matina. Deitas-te outra vez. Viras para um lado e para o outro e deduzes que não consegues dormir porque não escovaste os dentes. Então, levantas, agarras na colgate ou na aquafresh – se é que aí existe -, metes na escova e fazes o trabalho olhando para o espelho do armarinho. Secas a boca no pano de mão e retornas ao leito convencido de que desta vez cairás num sono profundo. Só que aí olhas para o relógio: são cinco e quarenta da manhã. Não dormes porque estás a contar quanto tempo te resta para o despertador tocar. Que merda, pensas. Viras para a esquerda e metes-te a olhar para a parede. O sol começa a apontar pelas frestas da janela e tu devias estar a dormir. É verdade, o sol não espera por ti. Na verdade, ele está se fudendo se dormiste ou não. Mas tu o admiras porque quando acordas ele está sempre lá. Pois bem, desta vez não adormeceste e agora sentes vontade de fazer xixi. Miras a tua uretra e dizes: Foda-se, puta que pariu, agora não! Mas não adianta, a bexiga está cheia daquilo que um dia foi leite Parmalat. Cambaleante e puto da vida, caminhas. Levantas a tampa do vaso, baixas cueca – não necessariamente por esta ordem – e nem sequer olhas para onde estás a urinar. Os olhos doem, o teu sono parece ter nascido com o sol. Sobes a cueca - ou não -, dás descarga, olhas para o relógio, mandas o sol para o inferno e deitas-te uma vez mais. Desligas o despertador. Chutas o lençol para o chão porque o calor fez o favor de começar a fritar as paredes do teu quarto. Fitas o tecto inconformado e ainda pensando nas coisas que devias ter feito no dia anterior. Lá fora já se ouve um certo movimento. As lojas começam a abrir suas portas e as buzinas dos carros já se fazem ouvir. Enquanto sentes as tuas olheiras te escorrerem pelo rosto, notas que estás a começar a adormecer. Adormeces, mas duas horas depois já estás de pé: cansado, fodido, morto. Dizendo a si mesmo que hoje não fará porra nenhuma. Mas é mentira, porque acabas sempre fazendo alguma coisa.

Pois é, passe este relato para o feminino e adicione a filha da p*ta da cólica de tpm que a tua sobrinha teve. Uma cólica que dá vontade de arrancar os ovários com os dentes. Uma dor incómoda que vai do ventre até as pernas, e uma raiva, mas uma raiva gigantesca por ser mulher. Pqp. Porque é que os homens não engravidam?