a nossa alma é um poço sem fundo onde cabe tudo: o bem que fazemos e a desgraça que somos. Para quê nos procurarmos tanto? O segredo está em ser incognoscível eternamente. Desvendar-se, mantendo-se sempre na confortável ignorância de não se saber nada.
sábado, 24 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Margaridas I e II

Margarida ISonhei com a margarida
tão cheia de aroma,
tão cheia de vida.
As pétalas tão macias,
que eu cheirava com cuidado
que eu sentia, inebriado.
Pus as pétalas na boca
e num instante o desejo
tomou-me a mente, tão louca.
Bom sentir aquele cheiro,
seu perfume alvissareiro,
orvalhada de prazeres.
Tomar o orvalho, com sede.
Lamber os lábios de orvalho,
sem deixar nada escorrer.
Seu orvalho, seu perfume...
Da Natureza, um ciúme
no meu peito vi nascer.
Margarida II
Refeito do sonho louco,
esfreguei os olhos baços,
já vermelhos de cansaços.
Sonhei com a Margarida,
mas o desenho animado,
sem perfume, sem agrado,
só a graça pueril.
Ri bastante do meu sonho,
que me deixou bem cabreiro.
A margarida de olores
perfumados com calores
era de outro jardineiro.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Cô, hoje eu fiz torta de frango! Hahahaha

eu estava sozinho aqui, e resolvi ir mexer os miolos na cozinha. Há uma certa massa de liquidificador, cuja receita peguei com minha mãe, sua tia-avó, bem fácil de fazer.
O recheio foi todo criação minha: fritei cebola no azeite; quando esta começou a corar, botei alho (porque o alho cresta mais rápido que a irmãzona dele). Aí foram salsinha e cebolinha, que abafei com a tampa, para permutarem sabor com os outros dois ingredientes.
Quando achei que os 4 fantásticos já estavam num ponto de cocção bom, botei lá tomates picados bem pequenininhos e deixei refogar a mistura. A pimenta vai a gosto. Eu prefiro malagueta.
O frango estava sendo frito em outra panela, já desfiado. Veja: não é deep fried, mas stir fried.
Untei a assadeira, enchi com a massa a parte de baixo, depositei ali o meu recheio e coloquei o resto da massa, por cima.
Foram 30 minutos de forno.
Enquanto a torta assava, fui lavando a louça, para poder comer numa cozinha organizada - não sou clean freak, mas também não gosto de baderna, você sabe bem.
Ah, que delícia. E olhe, modéstia à parte. O toque secreto foi pôr um pouco de creme de leite no frango-recheio. Huuummmm!
Eis aí: são estes os prazeres da carne que venho tendo, ultimamente. Hehehehehehe
Espremido entre a realidade e a fantasia ficou apenas o gosto salobro da esperança, esta regada a molho de desilusão...
Para que tantos sonhos, se não se podem realizar?
Post de Retratação - Pedido de Desculpas, de joelhos


Sobrinha, eu errei. Fui maus, fui punk, sou bipolar, tenho TOC, sei lá o que é... sou um M*, é isso.
Para vê-la sorrir de novo, escolhi estas imagens: o gatinho humilde rezando. Aqui ele representa meu pedido sincero de desculpas.
Em seguida, ofereço-lhe uma rosa, com carinho. De cô-ração para cô-ração.
Tudo isso para ver você sorrindo de novo, cô-mo a meninota da última imagem.
Você é a melhor sobrinha do mundo. Insubstituível, é a minha criança hiperdotada, megacefalada, de coração que verte amor e carinho.
É a minha Tudinha, lindinha, fofinha, etc.
Eu adoro você, Cô.
Desculpa aí o seu tio, ó...
Quando a vida perde a razão de ser.... ( A VERDADE)
Ontem fui dormir aos prantos. Finalmente me apercebi que o meu tio não gosta de mim. Só sirvo para resolver os seus problemas amorosos, as suas dores intestinais, para ver novelas sem o Mayer e para dar-lhe alguns auxílios acerca do youtube pornô. Enfim, ele me explora e não sente remorso algum.
Mas a estúpida sou eu, pois rezei durante anos para ser a única sobrinha, de modo a tê-lo só para mim, pensando que seria mais amada por ser exclusiva! Ó vida, como dói a desilusão da ilusão! O quê fiz, meu Deus, para ser tratada pior do que um farrapo transformado em tapete da porta de entrada? Onde foi que eu errei?
Eu fiz as maiores loucuras por ele: aceitei tomar sopa fria, comer ovos-moles às colheradas, mastigar nabos estragados, comer macarrão com feijão gelado, porções de frituras gordurentas logo pela manhã, potes gigantescos de nutela… hum…Passei madrugadas inteiras vigiando as sua febres, dei remedinho, dei sopinha na boca, fiz papinhas de aveia com mel, os mais variados tipos de sobremesas, dei apoio moral nos momentos em que os seus intestinos deram nós de marinheiro, o defendi quando alguém quis lhe bater… (pausa para respirar) … ajeitei as cobertas, passei a roupinha, comprei gravatas, levei para passear, comprei sorvetinho, levei ao cinema, comprei pipoquinha, fiquei acordada até amanhecer só para fazer-lhe companhia, dispensei as suas peruas, partilhei da sua insónia, dei conselhos, deixei que ele chorasse aqui ó…no meu ombro! E é só eu arranjar um namorado, que ele começa a dar chiliques? A berrar que não lhe dou atenção? Que já começa reclamar só porque eu não preparo a água da banheira dele? Ó, dor! O quê foi que eu ganhei com tudo isso? Broncas! Puxões de orelhas! Abanões! Tropeções!
Maldita a hora em que aceitei partilhar um blog! Isso aqui virou um campo minado! Aonde quer que eu olhe, lá está ele tecendo injúrias contra a minha pessoa, ameaçando me abandonar, despaixando os outros dois tios suplentes, me trocando por mulheres nuas e me isolando do mundo virtual! O meu tio, aos poucos, tornou-se no meu cativeiro! Alguém me salve! Alguém me acuda! Porque ele não tem janelas nem portas, e eu não consigo sair daqui de dentro!
Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaá!
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Monólogo de um Lençol (Jean Valjean)

Vou alisar-te a pele, sem receios.
Do calcanhar à nuca... a alisar-te.
Teu corpo, tua linda obra de arte.
Tua arte, que me encanta com meneios.
Um palmo meu há de acariciar-te
os bicos túrgidos dos belos seios;
e outro, em teu recôndito, os anseios...
Teu corpo - muito mais que um baluarte.
E quando a pele tua, em arrepios,
te faça então sonhar mil desvarios,
deixa que o sonho embale a tua emoção:
Me aperta contra o peito, com ternura,
que eu, macio, refesto em minha alvura,
hei-de cobrir também teu coração.
Quando a vida perde a razão de ser...
Minha SOBRINHA, minha única SOBRINHA, anda me ignorando.
De novo sem paciência para ouvir os meus lamentos que, pobrezinhos, vêm em dó menor. Eu murmuro dores, ela me castiga com chicotadas.
Eu revelo minhas fragilidades, ela me cobra uma pujança que não tenho.
Acho que vou me suicidar, e pensei em três formas diferentes:
1a - Vou a New York, subo até o alto do Empire State Building e... pulo. Imaginem só! 5a Avenida, eu lá no topo do glamour e... puffffffff!
2a - Vou à França. Paris. La Tour Eiffel, Quai Branly. Subo até o topo e pulo. Eu lá no topo do glamour e... puffffff!
3a - Fico aqui em casa, mesmo. Ligo um CD da Alcione, tomo um copo de formicida, ligo o gás, fecho todas as janelas, tampo as frestas.
Quem quiser sugerir, por favor, aguardo, ansioso. Já que minha SOBRINHA não está mais aí comigo, só me resta o érebo, cruzar o Aqueronte, ir apertar a destra de Caronte. Nada mais quero... ó, dor!
Velho babão, bundão.
Esta semana, voltei a fazer as minhas corridas. Fiquei três meses impossibilitada de as fazer, e levei mais dois para criar coragem e entrar no rítimo. Tudo bem, há coisas piores.
Ontem, corri durante uma hora e meia, para acostumar. Cheguei em casa quebrada, morta de cansaço e de fome, querendo comer um boi. À noite, minhas pernas e coxas doíam. Tudo bem, há coisas piores. Comi meio boi e fui encontrar com o militar. Ou melhor: Fui encontrar com o militar e comi meio boi! Hahahahahaha!
Hoje a minha mãe disse que queria ir comigo. Amanheci quebrada, mancando, cambaleando. Enfim, arrebentada. Disse que sim, já sabendo que teria que adaptar o exercício não só por causa dela – que não corre – mas também porque não queria arrebentar os músculos. Fiz a mesma rota de ontem, só que metade do caminho correndo, metade caminhando rápido. Minha mãe ia bem atrás, caminhando, se assustando com aqueles cães que esperam você virar as costas para latirem, com os carros que surgiam de nenhures e tropeçando.
Repetimos o caminho umas oito vezes, até que eu disse:
- Fazemos esta última e vamos embora, tá?
Concordou. Virei a esquina e logo avistei um senhor lavando o carro. Pensei comigo: “ Pô, se esse cara me molhasse, era tudo!” Porque estava fervendo, apesar do vento. Quando me aproximei mais um pouco, a primeira coisa que reparei, foi: o velho tava com metade da bunda prá fora. Que nojo, senti vontade de sair correndo, mas não dava.
Disfarcei, continuei me aproximando, e não é que assim que passei pelo carro, o velho me ensopou as costas?! Eu não sabia se ficava p*ta ou se agradecia. Não fiz nada, subi na calçada para ver se ele faria o mesmo com a minha mãe. Mas não fez. Não sei se foi por ter se assustado com a sua cara zangada (cara de quem tinha visto tudo), ou porque só gosta de molhar ‘menininhas’.
O pior não foi isso. O pior é que eu estava toda de branco, e apesar da parte inferior ser mais grossa, a camiseta era finíssima, junto ao corpo, e o sutian enchia o saco porque não era próprio para corrida. Dá para acreditar? Cheguei em casa quebrada, molhada, chingando a minha roupa interior, faminta e, pior ainda, lembrando da cara de satisfação do velho babão.
Existe coisa pior do que isso?
Tio, me (s)acode.
Se eu fosse...
domingo, 18 de julho de 2010
Eu, mulher (Jean Valjean, sob inspiração dos laços borromeanos de Lacan)
Eu te quero, homem, corpo e espírito. O tesão, sem alma, é hemiplégico; a alma, sem corpo, é inane. E também quero entregar-me a ti inteira. Não metade de mim, não a minha epiderme, não a minha complacência. Quero mais que satisfazer-te: desejo satisfazer-nos. Quero que quando a porta se feche sejamos cúmplices, e que quando a mesma porta se abra sejamos um só.
Quero teu sangue em minhas veias, a circular; tuas idéias em minha mente; tua boca em minha boca, teu corpo no meu corpo, teu coração me amando tanto quanto o meu te ama.
Dadas tais premissas, meu corpo será o teu templo, e teu corpo o mar onde o meu, feito barco, vai singrar.
Tua língua, lânguida, quero-a em meus seios bailando coréias; desce, amor, ao meu umbigo, beija-me o ventre, lambe-me os lábios vermelhos e o prazer que me escorre, morno e incessante, do imo.
Penetra-me, invade-me, rompe-me e irrompe em mim. Fertiliza-me de apreensão, de ansiedade, de dúvida, de gozo, de satisfação.
Deposita em meu âmago a tua confiança, como eu, a minha, deposito em ti.
Quero beijar-te, insopitável, e molhar teu corpo todo com minha saliva. Quero colher teu sêmen com a gana duma esfaimada.
Aqueces-me e te aqueço, a cada hora. Trocamos calor, confidências, imagens, reflexos, desejos, ensejos, despimo-nos um para o outro. Despimo-nos das alfaias e das vaidades. Do corpo, da mente, do coração. Entramos em simbiose. Entregamo-nos à inércia dos objetos em movimento, que permanecem a mover-se.
Queres-me? Vem a mim. Vem montar tua casa no meu peito, lançar tuas luzes em minha sombra, deitar a cabeça em minha alfombra, calar-me a boca com tua língua.
Neste momento, não sou eu - sou tu. E tu não és senão eu. Permutemo-nos e sejamos, ao menos pela infinitude desse encontro, não-eus dissolvidos e depois amalgamados num algo só. Sejamos o real, o simbólico e o imaginado. Ao menos nessa hora.
sábado, 17 de julho de 2010
Parabéns Velhinho!!
Eu sei que o seu aniversário é amanhã, mas nós não estaremos aqui para postar!
Por isso, eu desejo ao meu queridíssimo tio suplente, e o meu tio deseja ao seu mais feroz rival, um Felicíssimo Aniversário, repleto de coisinhas boas tanto para serem vividas, como comidas ou ambas!
Saiba que, mesmo que o meu tio não confesse, a sua presença sempre foi, é e sempre será essencial, por isso, não se atreva a morrer antes dos 98 anos!
Um beijo bem grande da Cô, outro enorme da Sarah ( ela obrigou-me), ambos cheios de carinho, e abracinhos do meu tiozão desaparecido, cruel e terrivelmente ingrato!
Feliz Aniversário!
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Hope.
A esperança é uma menina de saia rodada e saltos altos. É uma jovem de tronco despido e seios proeminentes que seduz todos os homens, fazendo com que corram atrás dela. A esperança é loura de cabelos encaracolados e olhos negros, profundos. Suas pernas são finas e sua cintura assemelha-se a um violoncelo. Seu silêncio é musical e voz silenciosa. É uma jovem peculiar, perpetuamente grávida de quimeras e sonhos por realizar. A esperança é a deusa dos mares incertos. Uma caravela carregada de fantasmas dentro dela. Quem nela entra, é condenado a nunca desistir de nada. Quem dela cai, afoga-se e se torna no próximo fantasma a velejá-la.
Por amor.
Das terras mais profundas,
Içarei o teu defunto e o lavarei
Com as águas cálidas do meu
Coração.
Das terras mais profundas,
Te roubarei as larvas
Para tornar as suas carnes,
Em bichos de estimação.
Deitar-me-ei, enfim, em teu lugar,
Deixando os teus ossos postos
Em sossego.
E de olhos fechados abrirei
Uma cova ainda mais funda
Para deitar-te bem no fundo
Do meu peito.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
As vacas das filas de espera!
...e depois existem aquelas bestas super grossas, que acham que só porque adoram passar a perna nos outros, todos são como elas!!
Ontem fui à minha antiga escola, para buscar uma ficha necessária para a candidatura. Secretaria é sempre secretaria. Não interessa o lugar: ou você se depara com uma fila enorme na tua frente, ou você só encontra uma pessoa que, por sua vez, gasta a tarde toda lá dentro. A da Faculdade de Letras de Cô-imbra funciona da seguinte maneira: Abre às 11, fecha às 13:00 para almoço. Depois abre às 14:00 para fechar às 16:30. Se você tira a sua senha às 11 horas, pode esquecer, pois só será atendido na parte da tarde. E não é porque tem muita gente antes de ti, aliás, pode ter somente uma. O que acontece é que eles estendem a chamada o máximo que puderem, e quando é lá para o meio-dia e meia, eles começam a passar os números correndo. Conclusão: se você não estiver, for cagar, libertar teus gases num local mais reservado, se fode.
Se você chega lá às 14:00, pode tirar a senha e fazer um tour pela cidade até as 15:45, pois lá para as 16:10 eles repetem o que fizeram na parte da manhã, e se você não estiver, se fode de novo. Sugestão: vá devidamente peidado, cagado, arrotado, almoçado e comido, assim não correrás o risco de ficares para o dia seguinte.
Voltando à escola. Lá não existem senhas, vão entrando de dois em dois. Ao entrarmos, vemos, se não me falha a memória, 10 pessoas lá dentro: 2 atendendo, 5 estão fingindo estar muito ocupados, outro realmente está bastante ocupado, e os dois últimos estão ao telefone.
Só uma rapariga me precedia, e antes dela encontrava-se mãe e filha (julgo eu) no balcão, e mais outro rapaz. Mãe e filha sairam, boy ficou, a garota entrou, eu entrei. Poucos minutos após fechar a porta e me encostar ao balcão (somente porque havia espaço e não queria levar com a porta nas costas), a garota muito sorrateiramente dirigiu-se a mim, dizendo:
- Não penses que vais ser atendida primeiro, eu estou na tua frente.
Aquilo foi o suficiente para me ferver o sangue. Tive vontade de dizer:
- Ô jumenta, não se preocupe que eu não vou te roubar o cliente!
Mas não disse. Pensei, ainda, em responder-lhe:
- Veremos.
Mas também não disse, simplesmente respondi para ela não se preocupar, pois eu tinha conhecimento que a donzela estava antes de mim. Ela deu um sorrisinho amargo, provavelmente pensando: “sei…”, e eu retribuí, pensando: “ %#$%S#*$%!”
No fim, de nada lhe valeu a sua chamada de atenção, pois fomos atendidas ao mesmo tempo, e eu saí primeiro que ela! Heuheuheusheushe! Além disso, fui embora respirando o ar puro, e ela saiu da secretaria respirando o arroto que mandei pelo nariz.
Sôudemais, confessaí!
segunda-feira, 12 de julho de 2010
De amores e paixões - Jean Valjean, republicação
Busquei nos teus abraços meus anseios,
E, no teu colo, a cura da soidão.
Eu quis meus fins por força dos teus meios,
E me entreguei, no Saara da paixão.
Busquei minha coragem em teus receios,
Meu tirocínio em tua indecisão.
Fundei meu raciocínio em tua emoção
E a minha liberdade em teus bloqueios.
Fui dono, enfim, de tudo o que não tinhas;
Dei-te os meus olhos pra com os teus, só, ver.
Não quis ter pernas, para andar com as tuas.
Hoje, que ando onde tu não mais caminhas,
Sinto-me um paralítico a correr,
Ou um cego, sem bengala, pelas ruas.
Nota: acabei de publicar, digo, republicar e já está no Google? O que é isto? Big Brother, como Orwell previra?
domingo, 11 de julho de 2010
Deus é fiel
Toda vez que eu leio essa frase, no carro de algum 'crente' ou o que o valha, fico pensando nos cachorros. Os cães são fieis, e são fieis sob o meu prisma de visão: eu sou, supostamente, o centro do universo deles; eles orbitam ao meu redor. Eu sou o sol, sou eu que brilho - como diria o compositor - e eles são fieis a mim. Ótimo. Agora Deus... ou é O Criador, Onipotente, Onisciente, Onipresente, Soberanamente Justo e Bom, ou não é Deus.
Aí eu pergunto: quem tem de ser fiel?
Então sugiro a frase seguinte:
Deu Zé Fiel.
O que significa? Havia dois cavalos num páreo: Zé Fiel e Zé Pagão. Depois de dada a largada, e a cavalaiada sair no pau pra levar a taça, foram ficando para trás todos os outros, até que Zé Fiel ganhou de Zé Pagão.
O João, meu amigo, havia apostado em Zé Pagão, mas não pôde ir ao Jockey Club para ver a corrida. Quando eu saí, ele ligou no meu celular e perguntou:
- E aí? O que deu?
E eu, honestamente:
Deu Zé Fiel.
Ó, crentes do catano... sugiro que não leveis o nome do cara em vão, pô!
Cada ano que passa
Uma homenagem ao Decadente, que em pouco fará aniversário.
Para mim, Decadente, se a juventude do corpo era a noite da alma, o envelhecimento do corpo tem trazido manhãs ao espírito. Prefiro a sensação de rejuvenescimento interior, e que venham as rugas, pois por suas trilhas as lágrimas vão para os lugares certos e os pensamentos escoam só por onde e para onde devem.
Passada a idade das ilusões é que nos permitimos renascer de cada tropeço, e cada vez mais introspectivos.
Só espero, pré-provecto amigo, que você não se torne tão amargo quanto eu venho me tornando.
sábado, 10 de julho de 2010
Os irmãos mais velhos servem para quê mesmo?
Tou com o meu ouvido pulsando desde ontem. Pulsando é pouco: tenho uma escola de samba dentro do ouvido, e o meu tímpano é o tambor. Todos têm conhecimento da minha fragilidade psicológica no que diz respeito aos ouvidos. Tenho um trauma profundo desde 1994, aquando da p*ta infecção que peguei em Brasília. É um trauma absolutamente justificável, para não falar do gigantesco histórico de dores e até de tímpanos perfurados, existentes na minha família (por parte de mãe)
Mas tudo piorou quando o meu irmão disse assim:
- Você tem um besouro aí dentro.
- Ah André, não enche o saco!
- É sério! Tá tremendo o ouvido?
- Tá.
- Poizé, é o besouro batendo as asas.
- Fica quieto!
- Daí, ele irá para o teu cérebro. A tua cabeça é um ninho de besouros!
Fiquei com medo: será que entrou um bicho no meu ouvido, e eu não me dei conta?
Ensinamento.
Seja feliz, mas em silêncio. Quando a felicidade lhe bater à porta, não faça uma festa. Não estoure foguetes. Não chame os vizinhos. Não cante, não dance, não grite bem alto! Seja feliz, mas por dentro. A tristeza tem sono leve.
Não sei ser aquilo que realmente sou, sem ser primeiro o que não sou. Ser aquilo que não se é, é ser da existência o seu artista, e do destino o trapezista. É preciso equilibrar-se no cordão umbilical da existência, sem rompê-lo. Quem conseguir chegar ao outro lado, ao útero que o condenou ao exílio, saberá ser daquilo que sempre foi, o complemento.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Cotó ou com os braços para trás?
Cô, agora eu estava olhando com calma para os bonequinhos que nos representam... ali, ó, no alto, à direita.
Filosofia de boteco: eu suponho que eu esteja com os braços para trás. Suponho. Mas se a gente olha de novo, não parece que o bonequinho não tem os braços, senão apenas o cotozinho, lá nos ombros, ou nem isso?
E aí eu parei para pensar no ser-humano que não pode ser simplesmente ele. Quem não pode ser o que está fadado a ser, quem não preenche o 'abismo entre o que é e o que deveria ser' fica igual àquele bonequinho: não dá pra saber se não tem os braços ou se simplesmente não os pode usar, ainda que os tenha.
Um minuto de silêncio para que reflitamos sobre o que de fato somos, e sobre se nos permitimos ser isto, apenas isto.
Tabela Periódica
Cô, faz tempo que eu saí da escola, e há coisas de que não me lembro mais, mesmo que deseje muito. Eis a minha dúvida, neste momento: o que é que a gente precisa comer, mesmo, para só expelir gases nobres? Ou talvez gases nobres sejam apenas os da Rainha Elisabeth? Se ela soltar 6 por dia vai de Argônio a Xenônio? Nestes casos não há o ir de A a Z? Ajude o seu tio, por favor.
Ração Humana
Pois é, Cô. Agora virou moda aqui nas plagas tupiniquins a tal da ração humana.
Na verdade, lá naquela cidade com que nós dois temos vínculos começou bem antes. Explodiu para os lados de cá faz menos tempo.
Enfim, isto é outro papo.
Hoje comprei ração humana para jogar no baldinho de iogurte.
Comecei a comer aquele macerado e pensei: agora vou engolir o pâncreas, moído; depois vêm os rins, triturados. E tome fígado, baço, miolos... comecei a criar um açougue na minha cabeça fraca. Deu nojo.
Liguei a TV, começava o Jornal Nacional.
...
Acho que a imprensa se alimenta de ração humana há mais tempo que nós, os comuns mortais.
terça-feira, 6 de julho de 2010
(IN)finito.
Pior do que a crise económica, é a crise moral. Ao contrário da primeira, esta é silenciosa. Ao contrário da primeira, a fome que a segunda provoca não é física, nem pode ser saciada com lacticínios. Ela tem a ver com o espírito. Espírito que controla a mente que, por sua vez, comanda o corpo - carne mergulhada em micróbios, vírus e secreções.
Em nós, existe dois tipos de deterioração: aquela que ocorre de fora para dentro - quando um corpo é abandonado, desprovido de cuidados, e antes mesmo dos órgãos deixarem de funcionar, as moscas, larvas e até mesmo animais selvagens o dilacera; E o apodrecimento ocorrido em sentido oposto. Este último, por sua vez, estou certa de que acontece com mais frequência. Ele não envolve larvas, nem se encontra necessariamente ligado aos meios mais pobres. O que é débil não é o corpo, mas a alma que é desnutrida. Não são os órgãos que deixam de funcionar, mas é o espírito que deixa de ter comando sobre a mente. E quando isso acontece, o nosso cérebro torna-se num albergue aberto a todos e quaisquer tipos de pensamentos, fazendo com que os nossos demos – outrora chicoteados, hoje algozes – façam a festa.
A crise moral dá-se quando o nosso avesso se transmuta num campo de batalha. Quando aquilo que resta do nosso organismo desenvolve anti-corpos, tendo como objectivo a expulsão da podridão que alimentamos. Podridão que não deixa de ser aquilo que realmente somos, pois ela sempre lá existiu antes de nossa alma ser açoitada pelo lado mais dark dela mesma. Ou seja, somos nós contra nós mesmos. Nós com alma, nós sem alma, nós porventura desalmados. Desarmados. São os nossos valores universais – partindo da premissa de que somos todos pequenos universos voltados para dentro de si mesmos, e infinitos até encontrarmos o nosso princípio – lutando contra o lixo espacial que nos invade por todos os lados.
O espírito, quando devidamente são, funciona como uma peneira. Ou, então, como um abutre: recicla o que não presta, transformando o que é prejudicial em algo bom. A verdade é que ainda não conheci uma pessoa que nunca se tenha debatido com os seus próprios valores, ou se confrontado com a falta deles. Que não se tenha olhado ao espelho, e indagado o que era feito da alma. Ou então, em casos mais drásticos, em que tenha chegado tarde demais. Mas chegado aonde? Como foi dito, eu posso ter um pouco mais de metro e meio, mas de alguma maneira o meu universo é infinito. E quanto maior for o universo, mais difícil será encontrar o vértice no qual se iniciou a deterioração.
Shakespeare, sonnet CXLIV
Two loves I have of comfort and despair,
Which like to spirits do suggest me still:
The better angel is a man right fair,
The worser spirit a woman colour'd ill.
To win me so on to hell, my female evil
Tempteth my better angel from my side,
And would corrupt my saint to be a devil,
Wooing his purity with her foul pride.
And wether that my angel be turn'd fiend
Suspect I may, yet not directly tell;
But being both from me, both to each friend,
I guess an angel is another's hell:
Versão: Sugestão de Jean Valjean
Vozes que de conforto e derrocada
Gritam-me dentro d'alma, esta em conflito:
Meu anjo-bom é homem gentil, bonito;
Meu anjo-mau, u'a fêmea intemperada.
Quer me levar, a fêmea, ao Pandemônio,
Tentando o gênio-bom, o meu confrade;
Quer fazer, deste, assecla do Demônio,
Tisnando o puro ser com sua vaidade.
Suspeito eu, a mente turva, em briga,
Que o anjo-bom não é mais ser-superno.
Estando ambos em mim, eu é que diga:
Acho que os anjos são, um do outro, o inferno.
Which like to spirits do suggest me still:
The better angel is a man right fair,
The worser spirit a woman colour'd ill.
To win me so on to hell, my female evil
Tempteth my better angel from my side,
And would corrupt my saint to be a devil,
Wooing his purity with her foul pride.
And wether that my angel be turn'd fiend
Suspect I may, yet not directly tell;
But being both from me, both to each friend,
I guess an angel is another's hell:
Yet this shall ne'er know, but live in doubt
Till my bad angel fire my good one out.
Versão: Sugestão de Jean Valjean
Vozes que de conforto e derrocada
Gritam-me dentro d'alma, esta em conflito:
Meu anjo-bom é homem gentil, bonito;
Meu anjo-mau, u'a fêmea intemperada.
Quer me levar, a fêmea, ao Pandemônio,
Tentando o gênio-bom, o meu confrade;
Quer fazer, deste, assecla do Demônio,
Tisnando o puro ser com sua vaidade.
Suspeito eu, a mente turva, em briga,
Que o anjo-bom não é mais ser-superno.
Estando ambos em mim, eu é que diga:
Acho que os anjos são, um do outro, o inferno.
Só um modo há, de saber, e é este, enfim:
Quando o anjo-mau expulse o bom de mim.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Método Francês (?)

Aí você entra na lavanderia e está escrito: "método francês".
O que será? Eles pegam a camisa, do jeitinho que estiver, e enchem de Chanel?
Ué, pode ser, né? Duas funcionárias erguem as mangas da camisa, a outra mira o Chanel sei lá que número nas axilas e pfffff, pfffff, pfffff.
15 minutos depois a camisa está pronta para ser usada.
E se for calça?
...
domingo, 4 de julho de 2010
Meus pensamentos são onomatopeias.
Gritos que se confundem com suspiros;
Pedidos de socorro e consoantes acidentadas
Numa estrada onde o trânsito é proibido.
A sinalização é sempre a mesma:
« Proibido Pensar» escrito com tinta vermelha.
Mas sempre que me perco entre as curvas
E contracurvas dos meus abismos,
Os meus demónios desatam aos guinchos.
Penso porque o meu cérebro
Não funciona de outra maneira:
Meus pensamentos são carros sem freio
Que batem nos postes dos meus precipícios.
A voz que ouço não é a mesma
Que me açoita a garganta.
E meus dentes mastigam um silêncio
Que não quer ser cuspido.
No fundo, eu sou a ponte
Entre aquilo que sou
E o que deveria ter sido.
sábado, 3 de julho de 2010
Pê Ésse:
Este blog tem se tornado, aos poucos, um lugar no qual o meu tio tem descarregado uma série de acusações contra a minha pequeníssima pessoa e, até agora, tem saído impune. Ingrato. Verdade seja dita: ele faz isso porque adora ter a minha atenção. Faz de tudo para eu largar tudo o que estou fazendo, e me juntar aos seus pensamentos e filosofias perversas. Adora poluir a pouca inocência que me resta com indecências. Faz birra. Me ensinou a arte da chantagem e persuasão. É sensível, chora que nem uma mocinha nos últimos capítulos das novelas.
No fundo, é uma criança fofíssima com um coração e duas bochechas enormes. Só que mais lá para o fundo ainda, encontra-se alguém com uma mente perigosamente perspicaz e de sentidos aguçados. Alguém que sabe mas finge que não sabe por, talvez, (quem sabe?), saber de coisas que não gostaria de saber. Mas isso não interessa, pois eu sei que ele sabe e ele certamente sabe que eu sei que ele sempre soube que eu sei que ele sabe.
Caros amigos e amigas, o Jean é um gênio não confessado, aliás, é um gênio num estado permanente de negação. Creiam!
Enfim, isto tudo só para dizer: As minhas preces foram ouvidas, e a Argentina está fora do mundial! Sinceramente: foi a melhor coisa que me aconteceu desde que o meu tio me chamou de desnaturada por eu, Cosette, abandonar as nossas conversas para ir lavar as partes íntimas.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
A vida do Totó é um ovo!
Tio, eu vou tomar banho!!
Toda vez que minha sobrinha me dispensa, em que o papo ficou enjoativo, em que ela não tem mais paciência para conversar com um senhor de idade pré-provecta, a desculpa é sempre a mesma:
- Tio, eu vou tomar banho.
Controla minha vida passo a passo, cronometra meus horários, vigia à moda 'big brother' a minha conduta diária (isso para não dizer 'noturnária' também), mas quando chega o cansaço e eu me torno chato e repetitivo, ela brada:
- Tio, eu vou tomar banho.
- Vai então, ingrata. Vai lavar a perereca...
DESNATURADAAAAAAA!
quarta-feira, 30 de junho de 2010
É o Urubu?
Ué, estou achando que o Urubu voltou para nos assombrar, disfarçado num codinome meio que sei lá...
E o pior é o desgraçado ter copiado um cumprimento meu! Ora, iaibichum!
Pernas, para que vos quero?
No meu tempo de criança, a mulher ou era bonita ou pensava. A disjuntiva era absolutamente coerente com a verdade: ou isso, ou então aquilo.
No meu tempo de criança, a mulher ou era gostosa ou pensava. Idem para a disjuntiva.
Hoje em dia, muita coisa mudou. A creatura tem cérebro, uma peitaria e umas coxas de dar inveja.
O pior é não se acanhar de mostrar ao público, mas isto são outros quinhentos.
Pode?
terça-feira, 29 de junho de 2010
Talvez o tempo esteja me tornando cética, e eu ainda não me tenha dado conta. A minha consciência deu-se conta, mas o que ainda está por acordar, não. É difícil não sê-lo, quando todas as teorias me parecem absurdamente improváveis. Daqui a pouco, duvidarei da minha existência, e a única maneira de provar que um dia vivi, será matando-me.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
De Augusto dos Anjos
Começaste a existir, geléia crua,
e hás de crescer, no teu silêncio, tanto,
que é natural que inda algum dia o pranto
das tuas concreções plásmicas flua.
A água, em conjugação com a terra nua,
vence o granito, deprimindo-o. O espanto
convulsiona o espírito e, entanto,
teu desenvolvimento continua.
Antes, geléia humana, não progridas!,
e em retrogradações indefinidas
volvas à antiga inexistência calma.
Antes o nada, ó!, gérmen, que inda haveres
de atingir, como o gérmen de outros seres,
o supremo infortúnio de ser alma!
e hás de crescer, no teu silêncio, tanto,
que é natural que inda algum dia o pranto
das tuas concreções plásmicas flua.
A água, em conjugação com a terra nua,
vence o granito, deprimindo-o. O espanto
convulsiona o espírito e, entanto,
teu desenvolvimento continua.
Antes, geléia humana, não progridas!,
e em retrogradações indefinidas
volvas à antiga inexistência calma.
Antes o nada, ó!, gérmen, que inda haveres
de atingir, como o gérmen de outros seres,
o supremo infortúnio de ser alma!
p.s.: eu acho que (i) ou aqui Chico Buarque se inspirou para dizer "se fosse permitido eu revertia o tempo pra escuridão do ventre, curuminha, de onde não deverias nunca ter saído", (ii) ou foi muita coincidência, e os dois tiveram a mesma idéia de retração, retorno, retrogradação, o Chico uns 70 anos depois. Não é impossível, quero deixar bem claro.
domingo, 27 de junho de 2010
Como surgiu o meu nome...
Minha mãe queria que eu me chamasse Angélica, mas graças ao meu bendito pai – que se negou terminantemente a aceitá-lo – tal tragédia não aconteceu.
Ainda hoje eles contam como foi:
- Amor, o que você acha de Angélica?
- Você está ficando louca? – respondeu o meu pai Tholomyès, dando um murro na mesa de madeira.
- Não! Angélica…Angelical…Anjo, meu bem!
- De maneira alguma! Ela chamar-se-à Cosette Valjean da Costa Pinto Ribeiro Soares da Silva Conceição Cervantes Pessoa da Cunha Rubem Alves e ponto final!
- Se eu fosse você, eu tiraria o E Ponto Final…
- Mulher, Cosette é um nome forte! Filha minha não tem nome mongolóide não!
E assim foi.
Todo o mundo sabe que eu sou medrosa. Que sou claustrofóbica. Desconfiada. Super hiper mega ultra (ou sei lá eu qual é a ordem disso) insegura. Que odeio quando me dizem: “ Eu tenho que falar com você”. Me dá um arrepio na espinha, e logo penso: “Ih, fiz merda.” Que odeio ainda mais quando me dizem: “Tenho que falar com você”, ai eu respondo: “ Fala” e o/a sujeio/a diz: “ Ah… deixa pra lá!”. Só eu sei a vontade que sinto de mandar a pessoa se f*der. Mas quando me dizem que têm um assunto super hiper mega urgente para falar comigo, eu não piro mais. Os assuntos hiper mega ultra super urgentes da minha mãe terminam sempre com um ponto de interrogação “ Menina ruim, eu tenho que pedir um beijo prá você?”, “Filha, lava a louça para mim?”, “ Filha, vamos passear? Vem descer o lixo com a mãe.”, “ Quer deixar de ser criança?”, “ Me empresta o seu esmalte preferido que você nunca emprestou para ninguém?, “ Vamos na padaria?” e a pior pergunta de todas: “ Quer sopa?”
No fundo, todas estas elas são retóricas, pois na maioria das vezes eu nem sequer me dou ao trabalho de respondê-las. Mãe que é mãe, tem o talento especial de pedir para que façamos aquilo que a gente mais detesta. Não é que eu não goste de a beijar, mas é que a filha dos sonhos dela sempre foi uma menina com o quarto super cor-de-rosa, com um armário abarrotado de coisas cor-de-rosa, com a mesa de estudos super hiper ultra mega organizada, com a cama ipecavelmente feita e, principalmente, que a beijasse no café da manhã, que lhe desse mais uns 5 beijos durante a tarde, e que corresse para o quarto dela antes de dormir e lhe amassasse as bochechas com mais 10.
Coitada, talvez, se eu me chamasse Angélica, as coisas fossem (bem) diferentes…
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O Perfume - Baudelaire. Sugestão de versão: J. Valjean - republicação inútil
Baudelaire
Lecteur, as-tu quelquefois respiré
Avec ivresse et lente gourmandise
Ce grain d'encens qui remplit une église,
Ou d'un sachet le musc invétéré ?
Charme profond, magique, dont nous grise
Dans le présent le passé restauré!
Ainsi l'amant sur un corps adoré
Du souvenir cueille la fleur exquise.
De ses cheveux élastiques et lourds,
Vivant sachet, encensoir de l'alcôve,
Une senteur montait, sauvage et fauve,
Et des habits, mousseline ou velours,
Tout imprégnés de sa jeunesse pure,
Se dégageait un parfum de fourrure.
Jean Valjean
Ó, meu leitor, já houveste respirado
com um misto de ebriez, gula e paixão,
o incenso, em um templo de uma religião,
ou um sachê, de almíscar impregnado?
O perfume nos lembra uma emoção
que nos resgata cousas do passado,
como lembrar o olor de um ser amado,
da flor selvagem do seu coração.
Ela cortou uns fios de seu cabelo,
e um pedaço de alfaia – de um modelo –
e me dizia: "que eu lhos dê mo apele!
Eu implorei; mos deu, partiu... não mais.
Deixou sachês de histórias imortais,
que inda têm o perfume de sua pele
Lecteur, as-tu quelquefois respiré
Avec ivresse et lente gourmandise
Ce grain d'encens qui remplit une église,
Ou d'un sachet le musc invétéré ?
Charme profond, magique, dont nous grise
Dans le présent le passé restauré!
Ainsi l'amant sur un corps adoré
Du souvenir cueille la fleur exquise.
De ses cheveux élastiques et lourds,
Vivant sachet, encensoir de l'alcôve,
Une senteur montait, sauvage et fauve,
Et des habits, mousseline ou velours,
Tout imprégnés de sa jeunesse pure,
Se dégageait un parfum de fourrure.
Jean Valjean
Ó, meu leitor, já houveste respirado
com um misto de ebriez, gula e paixão,
o incenso, em um templo de uma religião,
ou um sachê, de almíscar impregnado?
O perfume nos lembra uma emoção
que nos resgata cousas do passado,
como lembrar o olor de um ser amado,
da flor selvagem do seu coração.
Ela cortou uns fios de seu cabelo,
e um pedaço de alfaia – de um modelo –
e me dizia: "que eu lhos dê mo apele!
Eu implorei; mos deu, partiu... não mais.
Deixou sachês de histórias imortais,
que inda têm o perfume de sua pele
L'ennemi – C. Baudelaire. Sugestão de versão: Jean Valjean, republicação inútil
Baudelaire
Ma jeunesse ne fut qu'un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu'il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.
Voilà que j'ai touché l'automne des idées,
Et qu'il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l'eau creuse des trous grands comme des tombeaux.
Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?
— Ô douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
Et l'obscur Ennemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie!
Jean Valjean
Foi-me a juventude toda tempestades,
ora entrecortadas por brilhantes sóis.
A chuva e os trovões destruíram-me herdades
onde plantei flores, nos bons arrebóis.
Hoje entristecido, no Outono da vida,
preciso tomar de um arado e uma enxada,
por reconstituir minha nesga destruída,
em que há covas fundas - túmulos sem nada.
Quiçá flores novas, sonhos de meu horto,
não hão de achar no solo que hoje está morto
místico alimento que as faça vingar?
Ó dor, ó dor! Passa a vida, o tempo fica,
e o obscuro inimigo, que nos faz sangrar,
do sangue que nos rouba se fortifica.
Ma jeunesse ne fut qu'un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu'il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.
Voilà que j'ai touché l'automne des idées,
Et qu'il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l'eau creuse des trous grands comme des tombeaux.
Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?
— Ô douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
Et l'obscur Ennemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie!
Jean Valjean
Foi-me a juventude toda tempestades,
ora entrecortadas por brilhantes sóis.
A chuva e os trovões destruíram-me herdades
onde plantei flores, nos bons arrebóis.
Hoje entristecido, no Outono da vida,
preciso tomar de um arado e uma enxada,
por reconstituir minha nesga destruída,
em que há covas fundas - túmulos sem nada.
Quiçá flores novas, sonhos de meu horto,
não hão de achar no solo que hoje está morto
místico alimento que as faça vingar?
Ó dor, ó dor! Passa a vida, o tempo fica,
e o obscuro inimigo, que nos faz sangrar,
do sangue que nos rouba se fortifica.
Epitáfio II
I
Aos vencedores,
A taça dourada.
Aos perdedores,
O pó da estrada.
O regresso
Parece sempre mais longo
Do que a partida.
E o bilhete para quem nasce
É só de ida.
E o bilhete para quem nasce
É só de ida.
O suor das pernas
É sempre mais grosso
Que o da cara.
E o cansaço pesa nas costas
Feito aço.
II
As colunas curvam-se
Em ângulos obtusos
Rentes ao charco.
Para quem fica, resta
Esperar que a poeira passe.
E para quem vai,
Basta beber as águas de Março.
Se um dia encontrarem os meus ossos,
Diluam-nos em águas de creolina.
Desmanchem-nos como se eles não fossem partes
De alguém que não se despediu da vida.
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