sábado, 20 de março de 2010

Noite de Cão.


Já te aconteceu teres tanta coisa para fazer ao mesmo tempo e, no final do dia, dares-te conta que não fizeste nada? E depois vais te deitar e não consegues desligar a cabeça, e começas a fazer uma lista mental, enumerando as tuas pendências, e depois levantas, olhas para o relógio, decides que é muito tarde e que não vale a pena começares a fazê-las agora, pois fora da cama tens sono. Mas depois, deitas-te e a lista volta e o sono perde-se entre as tuas preocupações. E quando te dás conta, já é de madrugada e, para além de não teres as tuas pendências resolvidas, não tens sono e os teus olhos doem como se tivesse areia dentro deles. E depois ficas com fome, mas não comes porque comer de madrugada faz mal. Mas o teu estômago ronrona falares que só tu entendes. Aí, levantas para beber um copo de leite frio e comer uma bolacha maria. Abres um pouco a persiana para ver o sossego lá de fora e sentes uma brisa fresquinha refrescar-te o nariz. Metes o copo dentro da pia, porque não queres molhar as mãos às cinco da matina. Deitas-te outra vez. Viras para um lado e para o outro e deduzes que não consegues dormir porque não escovaste os dentes. Então, levantas, agarras na colgate ou na aquafresh – se é que aí existe -, metes na escova e fazes o trabalho olhando para o espelho do armarinho. Secas a boca no pano de mão e retornas ao leito convencido de que desta vez cairás num sono profundo. Só que aí olhas para o relógio: são cinco e quarenta da manhã. Não dormes porque estás a contar quanto tempo te resta para o despertador tocar. Que merda, pensas. Viras para a esquerda e metes-te a olhar para a parede. O sol começa a apontar pelas frestas da janela e tu devias estar a dormir. É verdade, o sol não espera por ti. Na verdade, ele está se fudendo se dormiste ou não. Mas tu o admiras porque quando acordas ele está sempre lá. Pois bem, desta vez não adormeceste e agora sentes vontade de fazer xixi. Miras a tua uretra e dizes: Foda-se, puta que pariu, agora não! Mas não adianta, a bexiga está cheia daquilo que um dia foi leite Parmalat. Cambaleante e puto da vida, caminhas. Levantas a tampa do vaso, baixas cueca – não necessariamente por esta ordem – e nem sequer olhas para onde estás a urinar. Os olhos doem, o teu sono parece ter nascido com o sol. Sobes a cueca - ou não -, dás descarga, olhas para o relógio, mandas o sol para o inferno e deitas-te uma vez mais. Desligas o despertador. Chutas o lençol para o chão porque o calor fez o favor de começar a fritar as paredes do teu quarto. Fitas o tecto inconformado e ainda pensando nas coisas que devias ter feito no dia anterior. Lá fora já se ouve um certo movimento. As lojas começam a abrir suas portas e as buzinas dos carros já se fazem ouvir. Enquanto sentes as tuas olheiras te escorrerem pelo rosto, notas que estás a começar a adormecer. Adormeces, mas duas horas depois já estás de pé: cansado, fodido, morto. Dizendo a si mesmo que hoje não fará porra nenhuma. Mas é mentira, porque acabas sempre fazendo alguma coisa.

Pois é, passe este relato para o feminino e adicione a filha da p*ta da cólica de tpm que a tua sobrinha teve. Uma cólica que dá vontade de arrancar os ovários com os dentes. Uma dor incómoda que vai do ventre até as pernas, e uma raiva, mas uma raiva gigantesca por ser mulher. Pqp. Porque é que os homens não engravidam?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Não interessa a ninguém, mas...


o meu irmão se aventurou no supermercado e resolveu – sozinho – escolher algumas frutas. Resultado: Trouxe três mangas podres, meia dúzia de bananas passadas e um saco de maçãs que só vão enxer o saco porque aqui em casa só a minha mãe gosta delas.
Por outro lado, ele também comprou um pacote de bolachas amanteigadas que, por sinal, estavam deliciosas. Ele detestou, e eu as devorei. S-u-m-i-r-a-m.

Mission Impossible - Sim, estou sem sono.



Todos os dias, depois do jornal da uma e após o jornal das oito, o meu pai esparrama-se no sofá, eu esparramo-me no outro, a minha mãe encolhe-se nas cobertas e juntos temos a certeza de que será impossível não adormecermos assistindo Missão Impossível.

Ah, Peter Graves....
Tio, vai dizer que ele não era bonitão?


Ah, as mulheres...

Cosette, eu lhe pergunto: por que é que, desde Adão e Eva (ou talvez bem antes disso), as mulheres não se cansam de ludibriar um bicho burro chamado homem? Esse imbecil é Pitecantropus quando erectus; entretanto, um dia deixa de ser erectus mas continua Pitecantropus. E Eva, e Salomé, e Dalila e... tantas, tantas outras, porque lhes haja mais bestunto da cerviz para cima, enganam o já des-enganado animal (ir)racional que se chama homem. Ou melhor: ómi. Ou ômi, como você preferir.
Se eu pudesse fazer cirurgia, não trocaria de genitália, não, mas de cérebro, ou de alma. Eu encerraria "As Academias de Sion" antes da "destroca".
Merda!

terça-feira, 16 de março de 2010

Cosette.




Há dias em que me vejo como um ser cretino. Ignorante de tudo e que o pouco que sabe, desconfia. Há dias em que me vejo como um ser cretino que insiste que acreditar em si mesmo é a melhor saída. Noutros, considero-me mais cretina ainda, por não inspirar confiança. Desconfio da minha própria sombra. Na rua, paro para que ela passe na minha frente. Quando me sento, sento-me nela para que não fuja de mim. Quando me levanto, ergo-me depois dela. E assim, vamos indo. Sempre num gerúndio mais longo do que qualquer universo ou oceano fundidos. 

Nicolau.... O (meu) Príncipe

“Não desconheço que muitos têm tido, e têm, a opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de modo a que a prudência dos homens nãos as poderia corrigir nem lhes ofertaria algum remédio. Dessa maneira, poder-se-ia pensar que ninguém deve se importar muito com elas, deixando-se simplesmente reger pela fortuna. Essa opinião é muito aceite na nossa época, pela grande variação das coisas, o que se percebe diariamente, fora de toda a conjetura humana. Em algumas ocasiões, quando considero o assunto, tendo a aceitá-lo. Apesar disso, e uma vez que o nosso livre-arbítrio permanece, acredito poder ser verdadeiro o fato de que a fortuna arbitre metade das nossas ações, mas que, mesmo assim, ela nos permita governar a outra metade quase inteira. Comparo-a a um desses rios impestuosos que, quando se enfurecem, transbordam pelas planícies, acabam com as árvores, as construções, arrastam montes de terra de um ponto a outro; tudo foge diante dele, tudo se submete a seu ímpeto, sem conseguir detê-lo, e, embora as coisas aconteçam assim, não é menos verdade que os homens, quando a calmaria retorna, são capazes de fazer consertos e barragens, de sorte que, em outra cheia, aqueles rios estarão correndo por um canal, e seu ímpeto não será nem tão leve nem tão nocivo. Assim também se passa com a fortuna; seu poder se manifesta onde não há resistência organizada, voltando ela a sua violência apenas para onde não se construíram diques nem se fizeram reparos para contê-la.
(…)
No entanto, limitando-me aos casos particulares, digo que hoje se virifica o êxito de um príncipe, e amanhã a sua derrota, sem que se verifique mudança em sua natureza, nem em algumas de suas qualidades. O motivo, acredito, como disse antes, é que, quando o príncipe se apoia apenas na fortuna, arruína-se de acordo com as variações daquela. Julgo feliz, também, o que harmoniza sua maneira de agir com as características de cada época, e infeliz aquele cujo modo de proceder discorda dos tempos. Quanto aos caminhos que os conduzem aos objectivos buscados, ou seja, glória e riquezas, procedem os homens, habitualmente, de formas diversas: um com prudência, outro com impetuosidade, um pela violência, outro pela astúcia, um com paciência, outro com a qualidade contrária, e cada um, por esses modos diferentes, pode chegar àqueles objetivos.
(…)
o homem prudente, quando chega o momento de agir com impetuosidade, não sabe o que fazer, e por isso vai à ruína, pois, se alterasse sua natureza, de acordo com a época e as coisas, não mudaria de sorte. “



Os Pensadores, Maquiavel, Cap XXV “ De Quanto Pode a Fortuna nas Coisas Humanas e de que Maneira se deve Resistir-lhe” - pags: 143-145

segunda-feira, 15 de março de 2010

Assim, sem tir-te nem guar-te

Ela me chamou para almoçar e eu disse:
- Não, eu não almoço - apenas trago frutas e sanduíches naturais.
- Ah, Jean, vamos! Preciso conversar com você, você me põe para cima.
- Ok, eu vou; entretanto, vou apenas para ver a vida que há por trás de seus olhos.
...
Não era minha intenção cortejá-la, mas ela adorou! E então vi vívida vida em seus olhos.
Quem sou eu?

domingo, 14 de março de 2010

Obrigado!

Sobrinha, minha tia-avó era uma senhora muito sábia e também muito rígida. Ela foi educada em colégio de freiras, tocava piano, pintava em tela, a óleo, falava árabe, inglês, francês e português fluentemente. Conhecia etiqueta como ninguém e entendia tudo de vida - esta era a parte que mais me chamava a atenção.
Nasceu hemiplégica, lá pelos idos de 1928, e faleceu, depois de uma vida muito sofrida, e de um coma bastante prolongado, em 1998.
Com ela aprendi várias coisas, entre as quais recusar uma oferta. Quando íamos jantar em casa de amigos, no interior, ela nos fazia jantar antes: era feio chegar esfaimado à casa dos outros e comer feito o lobo-guará que não vê caça há um duodecêndio. Ao contrário, se alguém ia à nossa casa, verdadeiros banquetes eram preparados (e devorados). Ela ficava muito feliz ao ver que aos outros prazia comer o que fizera.
Há muitas histórias dessa mulher forte, que guiava um Malibu adaptado (que meu avô, à época, importou do Canadá), fez história em sua cidadezinha e deixou um rastro muito interessante de suas "pegadas" mentais. Foi uma das pessoas que me iniciaram em Religião - muito mais pela conduta do que pelas palavras, e acreditava firmemente em Deus. Era perfeita? Naturalmente, não; era, todavia, um exemplo.
E por que mandei ver neste trololó todo, aqui? Hm...
É que você preparou um banquete para mim: deu-me poderes de administração. E eu, munido de tais poderes, recusei-os. Fi-lo, entretanto, por bem. Recusei-os porque uma determinada pessoa, cujo nome não merece menção, poderia abusar de tais poderes - embora eu não creia que vá fazê-lo, depois da carraspana que lhe passei, na última ousadia.
Lembra daqueles versinhos lá embaixo? Os que intitulei "amizade e confiança"? Pois é... você me ofereceu, mostrou amizade e confiança, e eu neguei, por um bom motivo.
C'est ça, já falei demais.
Obrigado, e abreijos!

Derrotado.


Eu vejo o verde detrás do verde
E o lado cinzento do azul.
Vejo o avesso do amarelo tornar-se roxo
E o vermelho enegrecer-se
Nos bordados do lençol.

Vejo asas nascerem nos peixes
E larvas voarem feito borboletas.
As crianças saltam a corda,
Tocam flautas e trombetas
Enquanto eu fito a minha sombra
Afundar-se no leito do rio.

Sentada na margem, congelo,
Enquanto, lá dentro, sinto frio.
Olho para cima, o sol brilha.
Olho para baixo, sorrio.

Judas, aleivoso, estende-me os braços
Enquanto afundo.
Estico os meus, tento abraçá-lo,
E quando acordo, sinto-me descer
Lá mais pro fundo.

Sentado, ele fita-me
Austero e soberano.
Pergunta-me o que eu quero:
“O mundo ou o submundo”.

Miro-o de volta,
 Digo-lhe: “ Quero tudo!”
Ele sorri, bate palmas.
Levanta-se da cadeira,
Sempre mudo.

Sozinho, abre a porta,
Despe o traje,
Olha-me mais uma vez.
Eu, decidida, não digo nada.
Ele, desiludido, parte
Inconformado com a sua pequenez.

20:00 - Na sala:

- Tou com fome.
- O que você quer?
- Não sei….O que é que tem?
- Tem a sopa que a mãe fez ontem. Deliciosa! Com espinafre, batata, cenoura, alho poró…etc…etc..
- Não, não quero.
- Tem o escondidinho também, aquela batata feita no forno com carne moída e queijo.
- Não…
- Tem o escondidinho que eu fiz para o teu irmão, de batata com alho poró…
- Nhé….
- Se quiser a mãe faz um sandwich prá você. Aquele que fica com uma casca crocante, por causa do queijo..
- Não… Não tem arroz?
- Tem. Quer arroz com legume e escondidinho?
- Não mãe, não quero escondidinho.
- Então o que você quer?
- Sei lá, quero arroz com alguma coisa. Não tem nada cremoso?
- Cremoso como?
- Sei lá, um creme de espinafre, por exemplo.
- Tem! Quer que a mãe faz? É rapidinho!
- Sim, e batata para fritar, tem?
- Tem.
- Óptimo, é isso que eu quero.
- Ok, a mãe faz e trás aqui prá você.
- Uhum...

Ah, como eu sou mal acostumada...!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Witt... eu amo esse homem

Wittgenstein tem o dom de me surpreender. Se ele pudesse aparecer, mortão da silva, à minha frente, eu me prosternaria, genuflexo, a seus pés, osculando-os respeitosamente.
Veja-se o que diz o Mestre (ele, meu ídolo atual), no capítulo X das "Investigações Filosóficas":
"1. Como é que chegamos a usar uma expressão como 'eu creio'? (...)
"2. A asserção 'creio que as coisas se passam assim' é usada como a afirmação 'as coisas passam-se assim'; e, no entanto a suposição de que eu creio que as coisas se passam assim não é como a suposição de que as coisas se passam assim.
"3. Assim, parece que a afirmação 'eu creio' não é a afirmação daquilo que a suposição 'eu creio' supõe!
"4. Do mesmo modo a frase declarativa 'eu creio que vai chover' tem um sentido semelhante, isto é, uma aplicação semelhante a 'vai chover', mas eu cri, então, que 'ia chover' não tem um sentido semelhante a 'então choveu'.
(...)
"10. 'Eu creio...' esclarece o meu estado de consciência. Desta afirmação é possível tirar conclusões acerca de meu comportamento. Há aqui também uma semelhança com as expressões de emoção, disposição, etc."
Temo – e acho que o Mestre também temia – pelos ditos filósofos e religiosos que fazem da expressão 'eu creio' outra, completamente diferente: 'é assim'; todavia, o Tratado Lógico-Filosófico de Wittgenstein, sétima (e última) sura, resolve a questão de maneira cabal: "acerca daquilo de que não se pode falar, tem que se ficar em silêncio'.

Alguma coisa acontece...?

Com o colesterol nas alturas, triglicérides também crescendo em progressão geométrica, glicose no limite do aceitável, acenando e sorrindo para o inaceitável, eu diria que "alguma coisa acontece com meu coração", mas não apenas "quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João".

Guimarães na vida

Com 44 anos de existência, eu diria, usando a linguagem de Guimarães Rosa, que me sinto assim:

"No caminho com brocotós de todos os lados, chuto os calhaus para desonçar as trevas e chegar a alguma garridice. Sem moucar-me para as lamúrias do mundo, mas sem deixar de gazear, enfrento o embondo da vida sem muita gastura, tentando lanhar os passopretos que ousam ficar na minha cabeça, buscando sempre o tão sonhado remimento dos pecados e escote das más recordações para continuar na andança."

Em ano de eleição...

Um brinde aos usurpadores,
Aos fabulistas falazes,
Que em seus discursos loquazes
Dizem não ser malfeitores!
Vivam!

Inda um brinde aos usurários,
Matemáticos do diabo,
Que, se exercitam desgabo,
Dizem não ser mercenários!
Vivam!

Uma taça de champanha
No País desses calheiros,
Bandidos, vermes, rafeiros,
Que fazem tanta artimanha!
Vivam!

Vivam as nossas raízes,
Os bandalhos do Congresso,
O histrião que é réu-confesso,
Os truões e as meretrizes!
Cheers!

Viva, ora!, a lei do chanfalho,
Viva o Marcola erudito,
Viva o sátrapa maldito
E o alho feito bugalho.
Salve!

Salve a justiça mal feita
Pelas mãos de irmãos metralha,
Pelo ardil do que atrapalha,
E que faz supor suspeita!
Salve!

Uma taça de conhaque
Pelos ladrões de galinhas
Que enganam donas velhinhas
Vestindo cartola e fraque!
A eles!

Vivam aqueles canalhas
Que usam roupas vistosas,
Ostentam casas luxuosas,
Mas são nada mais que tralhas!
Vivam!

Uma taça de Brunello
Pelos vesgos, pelos blufos,
Pelos sórdidos tartufos
E os de coração banguelo!
Vivam!

Os seres humanos somos tão frágeis!

Sob a armadura do corpo, o elmo do rosto sorridente – embora mal acobertando os olhos baços e talvez úmidos –, os guantes das mãos bem ajustados, a proteção do corpo intocável, sob todo esse aparato de defesa, somos débil chama de uma vela tangida pelo vento: se este é mais brando oscilamos, mas nos mantemos acesos; se mais forte...
Pessoas tão bonitas, corpos tão bem talhados, roupas tão novas e caras e, por baixo disso tudo, somos delicados como as asas da libélula.
Vede quantos sofrem de solidão, embora em meio à mole ridente! E quantos sorriem para disfarçar o pranto copioso? Quantos se ufanam das relações multitudinárias, mas dariam fração considerável da vida para achar quem os amasse?
E assim caminha o ser humano, protegido pela grossa epiderme, empunhando a lança da ousadia, o gládio da agressividade e o escudo da ufania, só para lutar contra o medo que o reles vislumbre de sua condição humana lhe causa.
Sou capaz de imaginar muitas pessoas vendendo a alma para o diabo, a fim de se haverem só um pouquinho com Deus. Ou é loucura da minha cabeça?

A bandeira brasileira

Acho que é meio superficial dizer que as cores da bandeira brasileira representam as matas, o ouro, o céu (ou as águas) e não sei mais quê (o que usam para justificar o branco, mesmo?).
Um pouco de história faz-nos bem:
Quando as primeiras naus portuguesas aportaram neste Brasilzão de Deus, elas vinham com a bandeira da Ordem de Cristo, em cujo seio podia-se ver insculpida a sagrada Cruz da Ordem, rubra como só ela, sobre o branco da neve.

Dom João III (que as de Cabral eram do período de D. João I) autorizou uma bandeira parecida com a primeira, mas subtraiu da dita cuja a cruz da Ordem de Cristo. Havia nela um escudo com a cruz acrescentada de cinco escudetes azuis e, acima de tudo, a coroa real.

Em nosso período Holandês, as capitanias todas ostentaram, por mais de duas décadas, a bandeira das Províncias Unidas da Holanda, que tinham três faixas: vermelha, branca e azul. Ao centro, um monograma dourado da Companhia das Índias Ocidentais.

Quando voltou a monarquia portuguesa, sob império de D. João IV, naturalmente deu-se vez à coroa lusitana. O escudo estava lá, ao centro, mas os ramos de D. João III foram subtraídos, passando aquele campo a ser azul, o que simbolizava o culto do Imperador a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal desde 1646.

Proclamada a independência, as cores da pátria, dominantes, passaram a ser o verde e o amarelo. Quero crer que o verde se deve à casa de Bragança, dinastia portuguesa da qual descendia Dom Pedro. E o amarelo ligar-se-ia à casa de Habsburgo-Lorena, a nobre família austríaca de Dna. Maria Leopoldina, primeira esposa de Dom Pedro I.

Não é mais coetâneo com a política nacional este colorido?

No cume da minha casa... (lembra desta, sobrinha?)

No cume da minha casa
Eu plantei uma roseira.
As rosas no cume ornam!
Perfumam a casa inteira!

As rosas no cume nascem,
As rosas do cume caem,
As rosas no cume brotam,
Rosas no cume florescem
E os vizinhos agradecem,
E rosas no cume botam!


Elas o cume perfumam,
Bem como o cume adornam.
Espinhos no cume existem,
Mas também o cume exornam!

Uns passarinhos, danados,
As rosas no cume viram!
No cume bicaram tanto,
Que elas do cume caíram...

Moleques da vizinhança
Também no cume subiram.
Treparam no cume, tendo
Nas mãos um pau que brandiram.

Com o pau, ao cume treparam;
As rosas no cume mexendo,
O pau no cume batendo,
Eles o cume estragaram...

Mas os vizinhos, bondosos,
Vieram me socorrer!
Todos muito prestimosos,
Queriam no cume ter
As rosas que o cume tinha,
Que eles no cume puseram,
Porque no cume convinha!
E um novo cume fizeram!

Mas eu, honesto que sou,
Já que eles ao cume foram,
E porque no cume entraram,
Todo o cume reformaram,
E rosas no cume puseram,
Decidi fazer assim:
O cume tido por mim
É o cume tido por todos.

Desde então, a vizinhança
No cume deixo subir.
Lá vai o velho, a criança
E quem ao cume quer ir.

Porque no cume plantaram
A perfumada roseira;
Porque o cume adornaram,
E a planta no cume cheira;
Porque se um no cume mexe,
Sabe a vizinhança inteira!

Como deparei com um incidente de plágio há pouco tempo, melhor eu esclarecer - o que já está nos comentários, mas ainda não aqui. Estas trovas não são de minha invenção: elas são muito conhecidas no interior de Minas e de São Paulo, e cada trovador faz a sua versão. O início é sempre o mesmo: 'no cume da minha casa...' e o restante fica para a criatividade de cada versejador. Esta é a minha versão: não tive a idéia de criar, mas a de desenvolver novas trovas, ou seja, a de dar cores ao cume de outro alguém.

SER FELIZ...

Li em manchete da Folha de São Paulo (se não me engano, do ano passado... ou teria sido retrasado? - bom, o que importa é que o tema volta à tona) que não sei quantos por cento dos brasileiros se dizem felizes. O percentil é assustadoramente grande: perto de 70% (!?)
Ora, ora... será que estão falando d'essa felicidade que supomos, árvore milagrosa que sonhamos toda arreada de dourados pomos?
Não posso crer. A pesquisa é tendenciosa, ou superficial, ou... hm... bem, já estamos de novo às vésperas das eleições. Faz parecer que o Brasil é um mundo... hm...
Desculpem-me, continuo com a teoria da Geni (que descrevi detalhadamente em minha encarnação passada e pincelei abaixo), e vou me apoiar em Voltaire.
Como já recebi, um dia, reclamações de pessoas preguiçosas que não querem ler um livro inteiro, dizendo que eu deveria mencionar página e edição da obra consultada, vou fazê-lo:
Tenho em mãos "O Filósofo Ignorante", de Voltaire, tradução de Antonio de Pádua Danesi, revisão de Claudia Berliner, Editora Martins Fontes, ano 2001, e estou com a obra aberta nas páginas 73 e 74.
Diz o autor:
"
Quase sempre os homens se limitam a entrever o que examinam (...). O homem certamente só pode querer as coisas cuja idéia lhe está presente. Ele não poderia ter vontade de ir à Ópera se não tivesse a idéia de Ópera; e não desejaria de modo algum ir lá, e não se determinaria de modo algum a ir lá, se o seu entendimento não lhe representasse esse espetáculo como uma coisa agradável. Ora, é nisso mesmo que consiste a sua liberdade; é no poder de se determinar a si mesmo a fazer o que lhe parece bom (...)."
Num país de famintos, um auxílio do tipo "bolsa família" faz dum presidente de república um emissário divino. O problema é manter o povo com fome justamente para dar-lhe um auxílio econômico precário e fazer-se passar por emissário divino.
Há mais: Sérgio Buarque de Holanda explica profunda e detalhadamente o homem cordial. Um idoso cuja saúde ande bem, e que possa fazer exercícios regularmente, e que tenha seu dinheiro para sobreviver, há-de, comumente, considerar-se feliz; duas pessoas em idade adulta que vão à academia, tenham um carro bonito, morem num bairro nobre e freqüentem os melhores restaurantes tendem a sentir-se felizes.
É novamente o antropocentrismo à Tycho Brahe: tudo roda ao redor do sol, desde que este orbite ao meu redor.
Não vai aqui nenhuma crítica destrutiva aos entrevistados, mas aos critérios de pesquisa. Quantas pessoas são capazes de pensar, senão em sua ascensão própria, na ascensão social integral?
Ser feliz dentro da concha do individualismo é sê-lo dentro de uma casa com cercas elétricas, dentro de um carro blindado, dentro, sempre dentro.
Andar pelas ruas de São Paulo (cujas esquinas estão abarrotadas de miseráveis pedindo esmola, flanelinhas limpando retrovisores, lava-vidros jogando água melosa em nossos pára-brisas, estropiados com sondas intra-nasais implorando alguns centavos e outras demonstrações de horrores) com um carro de luxo é o reflexo de que a felicidade, como se a supõe freqüentemente, é uma ilha paradisíaca em cuja orla há tubarões ameaçadores.
O crime organizado governa o Rio de Janeiro e São Paulo; parece-me que governa Brasília – ou melhor, o Brasil, também, mas a sigla não é PCC ou CV.
Aí eu ligo a televisão e vejo o Lula com cara de anjo (o Lula e o Netinho... um faz cara de anjo para cantar, outro para discursar, e cada um espanca sua Geni a seu modo), dizendo que o Brasil cresceu, que os outros só falam, e o povo exige de mim que mantenha o bom-humor.
À merda!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Maldade.



Há dias em que eu sinto prazer em erguer as mãos para o céu e dizer:
- Olha, olha! Olha ali um pássaro morto!
Só para ver as senhoras levantarem suas cabeças e perguntarem:
- Onde, filha, onde?!

quarta-feira, 10 de março de 2010

A "Igreja"

O divórcio era proibido, pelo que o casal religioso não se divorciava.
"Até que a morte os separe", dizia o prelado.
Aí a mulé matava o marido, ou vice-versa, e isso podia. Aí casava de novo, "de consciência tranquila" - ou de indulgência paga?
Hoje em dia é a camisinha que pega: não pode usar camisinha. Aí o casal vai, trepa sem camisinha e rola uma doença letal básica. Melhor assim? P*rra, ainda que fosse para manter o número de católicos (já que os protestantes andam crescendo em vulto), era melhor sustentar o uso da camisinha, não era não?

Vidamorte - Jean Valjean

E tu, que andas correndo pela vida,
e te achas imortal, igual a um deus?
Pensaste que haverá, sim, teu adeus,
e o mundo há-de seguir, à tua partida?

A ti, amigo, herdeiro dos sandeus,
a refletir o tempo te convida.
Cada chegada é nova despedida,
cada partida é dor pros sonhos teus.

Pensa que o tempo é a água nas tuas mãos,
que escorre pelos dedos, ora inermes
enquanto buscas estreitar seus vãos.

A água é águia; os dedos, paquidermes.
Pensas que vives? Teus ideais malsãos
estão virando janta para os vermes.

Vomitando letras em vão.

terça-feira, 9 de março de 2010

Resposta ao: "É aqui que me escondo"


Que raio. Insónia que não passa. Antes de tomá-los, pensava que os calmantes ajudassem a dormir. Eu me enganei, mas quem se importa? Eu vivo me enganando em tanta coisa.
Agora são quase 4 da manhã. Eis que salto da cama, alimento os meus cãezinhos virtuais - que arrumei num site qualquer e que, se bem me conheço, logo serão deletados – e me deparo com este texto. Que susto. Não sei bem a razão – ou talvez até saiba e queira me convencer que não sei – mas senti como se tivesse acabado de ler uma carta de um suicida. Li uma segunda vez, para provar a mim mesma que suicida era o estado da minha mente, e não quem escreveu. E foi como se uma onda me tivesse atingido a nuca, fazendo com que eu mergulhasse na escuridão do mar profundo e ficasse presa pelo dedo mindinho no dedo mindinho de alguém.
Ainda com a mesma sensação, pensei: Pronto, ele não volta mais. Depois pensei: Volta, afinal aqui é o seu tugúrio. Depois, afastei as minhas cogitações e tornei a ler. Desta vez e a partir daí, deixei-me ser invadida pelo meu tão famoso, adorado e, por vezes, discutível instinto protector. Sim, eu tenho por hábito abrir as asas e esticá-las o máximo possível para meter debaixo delas quem eu quero bem. Por isso, se queres andar nas sombras, protegido, sem ser importunado ou agredido, permita-me colocá-lo, então, debaixo delas. Que eu prometo, mas prometo mesmo, com todas aquelas tretas que envolvem as promessas, que jamais alguém tornará a importuná-lo.
Oh tio, a tua cabeça de nada me serve se não estiveres dentro dela. É exactamente o facto de tu seres esta imensidão que desconheces, que faz com que eu deite a minha cabeça no teu colo e disseque o meu cérebro com a merda que tenho impregnada nas minhas mãos. Ainda assim, permito que a deixes comigo, refugiada no meu colo, enquanto tentas deixar de ser aquilo que só eu sei que tu és. Inútil, porque para isso acontecer eu teria que deixar tudo o que sou. E para isso acontecer, eu teria que saber o que sou, e não sei. Se eu não sei, tu também não sabes, porque somos iguais. Por isso, vamos tentando até conseguirmos um dia, não ser.
Até lá, chega de epitáfios. Primeiro, porque te iria desiludir. Eu seria incapaz de te diminuir de forma a caberes em tão poucas linhas. Segundo, porque eu vejo claramente em ti – e tu sabes tão bem- a luz, a vida e a jovialidade que não encontro em mim – e olha que eu já me virei do avesso e me desvirei tantas e tantas vezes. Finalmente, em terceiro e último lugar, chega de epitáfios porque senão eu terei que ir até aí te matar pessoalmente pra ver se acordas pra vida. E isso é um bocado chato porque, afinal, são nove horas de viagem e ninguém merece. És o meu tio, não me fales em epitáfios, que até me dói.
Ah, a música do Thi. Lembro-me dela, parece que foi ontem que a ouvi pela primeira vez. Parece que foi ontem muita coisa e continuará parecendo que foi ontem enquanto o tempo existir dentro de mim.
São 4.35 da manhã, acho que agora sim, consigo dormir para me erguer às 9. Tu já dormes, certamente, espero eu que sim. Dorme bem, tio. Acorda bem. Levanta-te. Abre a janela e manda todo o mundo prá puta que os pariu. Sorria, recupere as energias.


Só não te esqueças que o meu dedo mindinho está preso junto ao teu.


Só uma vez, na vida,

espanquei um sujeito: eu bati tanto (mas tanto) com a cara na mão dele, que ... pobrezinho, não sei se voltou a escrever!

Tentei

me matar crucificado, mas só depois que preguei a primeira mão foi que descobri: não conseguiria pregar a segunda.
Incompetente...

É aqui que me escondo

Cosette, é aqui que me escondo: entre as quatro paredes desta sala virtual. Descobriram-me, apagaram meus textos (deliram textos que às vezes deliram), mas agora estão proibidos de voltar a fazê-lo. E aqui voltou a ser meu tugúrio.
Quero paz. Quero andar pela sombra. Sem agredir ou ser agredido. Sem conhecer ou ser conhecido. Sem... sem ter de explicar nada a ninguém.
Você tranca a porta, por favor?
Só não apague as luzes, que hoje não quero escuridão. A sombra deve ser parcial, distante do breu.
Vou deixar meu cérebro de molho num copo com formol, para evitar a rápida decomposição que assoma. Vou botar os olhos na geladeira, pois o fogo os consome. Minha boca, esta ficará apoiada, pelo queixo, na amurada dum navio. Vou espalhar meu corpo pelo mundo e ficar aqui, espírito, espiando.
Queria a graça de não-ser, por alguns instantes. Queria o silêncio anterior ao big-bang. Queria não ter sido criado e, incriado, permanecer para sempre inconsciente. Onde coloco meu tronco? Acho que ao lado de alguma árvore. A cabeça, já sem o cérebro (de molho), posso deitar no seu colo? Só quero dormir um pouco, não vou incomodar. Se uma lágrima escorrer, nem se abale: é o resíduo dum pensamento triste, que ficou por dentro da ossada da face, nada mais.
O que me faz querer a paz dum jazigo? Por falar em epitáfios, fiquei pensando em mais um: "agora está deitado o morto que até ontem estivera em pé: só mudou de posição, mantendo a condição."
Baixinha, a música, ao fundo, é a preferida do Thi (que, desgraçado, quase me mata de saudades): L'Ultima Neve...
Vou para outra dimensão, com os personagens de C.S. Lewis. Se der, eu volto. Aqui, entretanto, eu fico. No catre 'dentro do ângulo diedro da parede' imaginária. Perfeição é relativa. Deixo-me aqui e vou embora, pensar numa outra fuga.
Abreijos!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mundo Cruel

 O sol queima a terra.
Que queima o sol.
Que queima o solo,
As plantações
E a palma das tuas mãos.
A chuva inunda os olhos
Que caem na roupa
E vão ao chão
Como se fossem sementes de girassol.
A chuva inunda os olhos
Daqueles que olham para o céu.
O sol queima o pescoço
Dos cansados.
Dos que lavam a alma
Com a água que transpiras dos teus pés.
A lua ilumina a noite dos falhados.
Dos que caminham lado a lado
Com a solidão.
E as ventanias te sujam a cara
Com a mesma lama dos sapatos
Que te destruíram coração.

(There is no heaven above the clouds)

Lápide.

O sol queima a terra
Que ela pisa quando procura, incessantemente,
Não sabe o quê.
Seus olhos desfazem-se em lágrimas
Diante do túmulo de quem hoje é apenas cinzas,
E eu encaro a campa, e depois a cara da viúva
Que chora há mais de trinta anos por um corpo
Que não sabe de quem é.
Analfabeta, jura que ele está ali
Pelas redondezas.
Por isso,
Todos os dias se debruça sobre 
A lápide de um zé-ninguém.

Eu escuto e sacudo a cabeça
Tentando secar o suor que me escorre pela testa.
E juntas ajoelhamo-nos sobre a campa
Sem sabermos se está ali alguém.

domingo, 7 de março de 2010

Amizade e Confiança - Jean Valjean

Se tiveres um amigo,
dá pra ele confiança;
dá-lhe generosamente,
como se fosses criança.

Se houver amigo teu
que confiança te dê,
não pegues o que se deu:
dez por cento do ofertado
já será demasiado,
garanto-o a quem me lê.

Confiança é bem sagrado,
que só por ser ofertado
já mostra amizade intensa;
bem suave como a rosa,
que, se a tiro do canteiro,
deixa de ser formosa
pra morrer sem cor, sem cheiro...

Confiança é, pois, intangível:
deve ser, sim, ofertada,
mas é para ser negada,
pois deveras perecível.
Deve ficar na vitrine,
ou ser raio que ilumine
a água, a alfombra, o prado,
mas sem poder ser tocado.

Demonstração de amizade
de duas partes sinceras
é oferecer confiança,
(aquele que a oferta)
e recusá-la, deveras
(aquele que a desperta),
demonstrando sobriedade.

Confiança é bem etéreo:
lisonjeia a intenção
de se a oferecer
e o bom-senso (que mistério)
de nunca se a exercer.

É que quem dá confiança
confia em quem a receba:
guarda sempre a esperança
de que este logo conceba
que é apenas depositário,
e jamais o donatário
de um bem que, se for tocado,
perde o que tem de sagrado...
e um toque que a desagrade
despertará inimizade...

A revolta

Não sei por que isso se dá comigo, mas é assim desde os 11 ou 12 anos: às vezes acordo pela manhã e tenho NOJO do ser-humano. Nojo desse animal cretino, que evacua, urina, escarra, sua e secreta pensamentos que julga serem a apoteose da evolução.
Já em outros dias vejo a humanidade como seres pensantes (não deveria, mas vejo), buscando, lentamente, no pântano da vida, a orla do progresso em terra firme. Difícil, mas eles chegam lá.
E eu?
Eu nada... sou só uma coruja olhando. Olhões bem abertos.

Por falar em religiões,

a franca impressão que tenho quando vejo pastores (lato sensu: quaisquer pastores, para as suas ovelhas) pregando,
(nesta hora sou interrompido por uma voz interior que me diz:)
- Valjean, tanto os pastores quanto as ovelhas são lobos! Lembra o homo homini lupus?
Ouço a voz e volto a argumentar:
a franca impressão que tenho quando vejo pastores pregando...
(a voz, novamente, para me encher o sapiquá:)
- Jean, você os vê ou os ouve?
Ouço-a, não respondo e prossigo, depois de pigarrear levemente:
- a franca impressão que tenho, quando vejo, digo, quando OOOUÇOOO pastores pregando, é de que deus é uma m*rda e os pastores são bandidos desavergonhados, razão pela qual nos compelem, O MANDANTE de m*rda e OS MANDATÁRIOS do c*r*lho, que nós sejamos.
Moral da história: ninguém é perfeito p*rra nenhuma, e a vida continua, com o vento da hipocrisia a tanger as velas da incompreensão. Vamos, assim, pelo mare magnum da ignorância.

Pedir perdão e ser perdoado

Há pessoas que peçam perdão por crimes imperdoáveis; e há os que digam "eu perdoo", só para cumprir alguma praxe. Dois tipos de encenação bestas, um pelo verso, outro pelo anverso. Ah, o DNA das religiões, que mal nos faz.

Será?

O tal Dia Internacional da Mulher não será mais uma hipocrisia dos hipócritas de plantão? Não era melhor agirem que agitarem bandeirinhas coloridas e esboçarem sorrisos cínicos? Ou a data é para lembrar que só em 8/3, e nunca mais, é dia da mulher?
Há coisas que me incomodam mais que outras. Essas cortinas de fumaça, por exemplo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

IMPAGÁVEL !!!

 No carro:

- Mãe, o Jean conhece as tuas sopas.
- Ah é, filha? Como?
- Eu disse-lhe.
- Ele também gosta, é?
- Ao que tudo indica, sim. Mãe, porque razão você estava dando uma receita de macarrão em pleno centro de saúde?
-Porque a assistente me perguntou se no molho de tomate ia farinha.
- Ah…
(silêncio)
- A Cosette vai casar com o Jean.
- Hã?!
- Qual é o espanto? Há tantas pessoas que se encontram e…
- Mãe…
- …e atravessam o mundo para estarem juntas…e….
- Mããããe!
- Que foi?
- Acorda! O Jean é 23 anos mais velho que eu!
- …. e existem casos em que tudo dá tão certo!
- Mãããããeee!

….


 Durante cinco anos, eu tive um vizinho cego que dizia enxergar somente aquilo que queria ver. Durante cinco anos, o invejei, não porque era cego, mas porque enxergava melhor do que eu. Um dia, ele perguntou-me o que eu trazia vestido, e eu respondi: uma calça preta e um casaco azul. Inocentemente, tentei explicar-lhe de que cor era o azul. Que o azul era a cor do céu, do mar e da bermuda que ele trazia vestida, mas que o azul do céu era mais claro do que o azul do meu casaco, e que o tom do mar tinha um bocado de verde. Lembrei-me em seguida que ele não sabia o que era o claro, porque desde que nascera vivia em total escuridão. Os meus olhos dilataram e ele sorriu. Comentou que o dia estava nublado e que sentia um cheiro azul-escuro no ar. Eu olhei para cima e concordei. Naquela tarde, não havia pássaros no céu.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ires-e-vires da vida

Tu constróis ídolos, mas alguém, irrogando-se direitos que não há, os destrói. Teu iconoclasta de plantão totemiza os teus tabus e destes faz novos tótemes. Antes deixasse o vácuo no local. Deixasse o tempo e o espaço, juízos a priori, porque de juízos mal conformados estamos refertos.
Tu estás a andar por uma estrada, em completa soletude, e um hodierno Procusto te seqüestra, leva-te, cimitarra à glote, até o leito, e lá te deita, até que morras. Antes morresses pelo corpo que pela alma, que de corpos o mundo anda cheio; de almas, anda bem carente.
Tu te mostras lidimamente à turba multa, e dás a outra face, sempre que te espanquem uma. Arrancam-te o pescoço e te penduram os restos em praça pública, para vitualha dos olhos ferozes que passam em desfile. Querem também até a tua quarta geração.
Que te digo, infeliz companheiro? Que não construas, que não andes, que não mostres? Não. Digo-te apenas que sejas o que és hoje, porque o que serás amanhã tu ainda não sabes; e o que eras ontem já não é mais tu, mas o passado do pronome pessoal do caso reto, que se conjuga, em matéria de vida.
Cospe ao mundo a tua índole. Masturba-te na ágora e esquece que há alguém ao teu lado. Não há, de fato, ninguém ao teu lado: estão acima, a pisar-te os olhos.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Fetal development.


O imbecil que disse que na vida tudo passa, esqueceu-se de se lembrar que o tempo não é uma borracha, nem o passado um papel que pode ser amassado e lançado para a reciclagem. Na vida, nada passa, tudo fica. O passado é um óvulo e o feto é o presente. E o presente não pode ser abortado feito um feto indesejado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010



Esquecendo os meus segredos, eu não passo de um esqueleto. De um corpo poluído pelo fumo das usinas, sem importância nem propósito de vida. Carregando os meus segredos, eu sou um esqueleto fundido noutros tantos esqueletos que carrego. Sou a porta aberta de um armário velho e apodrecido, cuja chave fora engolida pelas entranhas de um Deus amargurado. Eu sou um armário sem fundo de ossos humanos. A terra que encobre os esqueletos sempre que tentam fechar a porta do armário. Um calabouço de segredos sórdidos e profanos onde os meus pecados se acasalam com os dos outros.

Os meus olhos ainda lacrimejam lágrimas de pó quando eu olho para as fotografias do armário. Quando eu olho e vejo que em cada uma delas há, pelo menos, um morto. Mortos que sorriem, que me carregam ao colo e dormem. Vejo mortos em todo lado sempre que me debruço sobre os álbuns de fotografia. Recordo-me de ouvi-los dizer o quanto eu era bonita. Todos acenavam com a cabeça, dizendo que sim, enquanto aqueles que ainda hoje estão vivos, sorriam. Lembro-me de ser sentada no chão, ao lado das pernas dos mortos, e de eles olharem para mim com afeição. Nem todos eram parentes. Com o tempo, eu me apercebi que havia nascido para ter duas famílias: aquela que partilhava comigo o mesmo tipo sanguíneo, e aqueles que dividiam comigo as suas almas. Estes sim, morreram quase todos, deixando para trás aquela criança que não engatinhava como todas as outras crianças, pois optava por sentar-se com as pernas cruzadas e ir se arrastando pelo corredor.

Os corredores, quando somos crianças e ainda não chegamos ao interruptor, parecem-nos sempre desmedidamente grandes. Vemos os nossos pais afastarem-se momentaneamente dos nossos corpos, e conforme vão se afastando, vão se tornando cada vez menores aos nossos olhos. Quando somos crianças, somos pequenos passarinhos contemplando o voar dos mais velhos no horizonte. Do cimo da árvore, apoiamos a cabeça na borda do ninho e olhamos lá para baixo com medo das alturas. Assustamo-nos com os galhos, com as flores e o cair das folhas. Ansiamos pelo regresso daqueles que partiram logo pela manhã.

Todos nós temos segredos. Os contáveis e os que não se contam. Os que podem ser passados de boca em boca, e aqueles que são levados connosco até ao túmulo. Quando passo pelos cemitérios, a primeira coisa que me vem a cabeça é a curiosidade de saber quantos segredos estão ali enterrados. Olho para as criptas e imagino os meus próprios epitáfios. Pergunto-me o que dizem as vozes que não conseguimos ouvir. Silencio-me, porque eu sou um túmulo de segredos que ninguém consegue abrir. 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Coisa de Doido



Sabe aquela sensação de que já dissemos algo, mas não conseguimos provar? Ou melhor, de que já escrevemos algo, mas não sabemos onde. Nos últimos dias, tenho tido a impressão de estar dizendo algo que eu já disse, mas que na verdade não cheguei a dizer. Pensei tanto naquilo que deveria ter escrito, que agora que vou escrever, tenho a sensação de estar me repetindo. Mas na verdade, eu não disse, mesmo querendo ter dito. E agora que estou pronta para dizer, não consigo, porque estou certa de que os meus pensamentos já foram materializados noutro lado qualquer. Sabe aquela sensação de já termos dito algo, mas não sabemos quando? Nós não sabemos quando porque simplesmente não dissemos aquilo que pensamos vezes e vezes sem conta, no entanto, ficamos crentes de que aquelas cogitações foram escritas em algum lugar. Não é possível, será que estou me repetindo? Sabe aquela sensação de que já dissemos algo, mas não conseguimos provar? Ou melhor, de que algo já foi escrito, mas não sabemos onde. Já tiveste aquela sensação de todas as palavras te parecerem iguais? Pensei em dizer algo, mas não o farei, porque tenho a certeza de que tudo já foi dito. No entanto, olho para os documentos do Word e para o arquivo do blog, e não vejo materializado de nenhuma forma aquilo que eu te ia dizer. Mas eu tenho a certeza de que está aqui. Está em algum lugar, escondido. E o quê é? Nem eu sei dizer.


(ps: eu acho que (já) estamos com 3 horas de diferença.)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010



Sejamos inteiros enquanto os nossos olhos se reflectirem na água pura do rio que rega e aduba as plantas dos nossos pés. Sejamos uma árvore cujos frutos alimentarão as almas condenadas que se mataram com esperança de começarem a viver. Sejamos juntos, a transparência do infinito, um corpo inatingível, dois amores platónicos destinados a morrer.


Quando o mar abraçar o leito do rio, envelheceremos os dois na porta de casa, com os pensamentos submersos nas nossas próprias marés. Seremos dois cadáveres petrificados, sentados de mãos dadas numa cadeira de crochet. Deixaremos que as raízes das árvores se enrosquem em cada perna, e que os nossos corações adubem as terras inférteis que enlameavam os nossos pés. Submersos, seremos o nada que o nosso espírito se negava a ver, e encontraremos a felicidade de que me falavas, quando encostava a cabeça nos teus ombros enquanto víamos a chuva abrandar. A aurora está no brilho dos teus olhos. Seremos sempre jovens enquanto virmos o rio correr.

( eu queria muito que o blogger colaborasse com a m*rda da edição da postagem. Mas hoje - sei lá eu a razão - esse fdp do c*r*lho resolveu me f*der a p*ta da paciência!)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Just Talking...



Faz frio lá fora. Eu estou aqui dentro sentindo o frio lá de fora enquanto olho pela janela. Tudo está fechado: portas, janelas e buracos. Do tecto já não gotejam pingos de chuva do verão passado, e o soalho de madeira está seco. Faz frio lá fora enquanto olho cá para dentro. Chove, venta e neva. E eu agarro-me às cobertas deixando apenas os olhos destapados. Ninguém me entende, porque eu não digo nada. Olho pela janela enquanto sinto os meus olhos descongelarem. O branco da neve é idêntico ao níveo do creme que espalho pelo corpo, e a minha pele assemelha-se as rachaduras de um lago congelado. O tempo pesa-me como pesam os corpos por cima do lago. E o sol torra-me o cerne das feridas até sangrarem. Ninguém entende aquilo que eu digo, porque eu calo-me. Sento-me diante da janela para ver o gelo transformar-se em água. Do outro lado da rua, os galhos das árvores secas caem. Não são as árvores que estão secas, são os galhos. E eles caem como caem aqueles que confiam nos braços da felicidade. Nunca confiei nos seus abraços, sempre os comparei aos ramos queimados e ressequidos pela ausência de tempestades. Durante toda a minha vida, os julguei desmedidamente fracos para os meus ventos contrários. E eu nunca me enganei nos meus julgamentos, caso contrário, hoje não teria à minha volta uma colecção de galhos quebrados.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cálice


O despertar para a realidade é lento.
As janelas abrem-se vagarosamente
Enquanto os olhos permanecem fixos
Num ponto negro.
As retinas estão secas,
Coladas à orbita de um Planeta
Que não gira há muito tempo.
E as lágrimas escorrem, impassíveis
Ao deserto de folhas secas
Que trago dentro do meu peito.

De repente,
O sol luzente dos teus olhos
É o causador das minhas chamas e aguaceiros.
Eu desperto com o teu cheiro
Impregnado à minha carne mal amada,
E me despeço.
Abro as janelas, sinto o vento
Apunhalar-me toda a face
E me desfaço.
Lanço-me do penhasco de concreto
E te venero.
Rogo pragas à tua alma
Enquanto caio.

Despertar para realidade
É assassinar o meu amor a sangue frio.
É cortá-lo aos mil pedaços enquanto esvaio.
É enxotá-lo de um coração desamparado
Sem dar por isso.

Despertar para a verdade é fazer do ódio
A realeza.
É acordar pelas metades
Enquanto os meus opostos
Se afogam na tristeza.
É tecer-te sonetos de amarguras
Enquanto me esvaeço em dolências.

Adorar-te, é corromper-me de propósito
Com o feitiço de um cálice entornado.
É deitar-me neste leito de águas fundas
Enquanto velejas nos meus mares assombrados.
É deixar-me morrer, abandonado,
Enquanto te ensaboas nas espumas 
Do meu fado.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Estou aqui fora, com uma xícara de chá preto nas mãos, observando o movimento da rua, quando vejo o meu vizinho dirigir-se a mim. Vem sorrindo, vem com algo nas mãos, vem feliz. Convido-o a entrar para sentarmo-nos junto a mesa da cozinha. Ele segura-me pela cintura antes de chegarmos à sala. Arrepio-me com a frescura do seu nariz. Cheiras a rosas, diz-me ele. Numa das mãos trás um girassol mais amarelo do que o áureo do próprio sol. Cheiras a rosas do campo. Viro-me para ele e sorrio. Obrigada pela flor, vizinho. No momento em que lhe beijo o rosto, ele abre o primeiro botão do meu vestido. O quê estás a fazer, pergunto. Quero sentir o cheiro do teu corpo. O meu corpo cheira a rosas, respondo, impedindo que ele abra o segundo. Ele tem olhos azuis e bochechas vermelhas. Duas maçãs prontas a serem mordidas. O seu nariz traz pequenas sardas castanhas e os seus lábios trincam-se até fazerem feridas. Beijo-lhe os lábios com suavidade. As suas mãos dançam por cima do meu vestido, para cima e para baixo enquanto a sua língua baila harmoniosamente junto da minha, até cairmos para cima da poltrona que havia sido do meu pai, mas que hoje está demasiado funda para alguém se sentar.
Abre-me o segundo botão com os dentes. Estou por cima dele, tenho uma visão privilegiada dos seus olhos. Por instantes, sinto-me tentada a beber da sua água e a cair de cabeça no oceano das suas cores. No entanto, desvio-me. As minhas mãos descem até a sua cintura e despem-lhe a camisa sem que eu desse por isso. Quero, mas não quero. Não quero porque se quiser terei que me convencer que fui para a cama com o vizinho da frente. E nada será como antes. Ele inventará todos os pretextos do mundo para bater à minha porta, e eu inventarei todas as desculpas do mundo para abri-la. Mas quero, porque assim escuso de fechá-la a chave, e passo a deixá-la encostada para ele entrar.


Ele levanta-se, pergunta-me onde é o meu quarto e antes que eu lhe indique a direcção, já estamos na cama. Agora é ele quem está por cima. Impaciente, rasga-me o resto de vestido como um felino faminto. Arrasta a sua língua do meu pescoço até a barriga e para logo abaixo do umbigo. Arrepio-me. Penso comigo no que estaria a fazer se não estivesse prestes a abrir-lhe as pernas. Possivelmente, estaria dando alface aos últimos patos que haviam sido da avó Márcia. Ou então, comendo amendoins enquanto via a repetição de uma telenovela mexicana. Ou pior, fazendo as unhas dos pés enquanto praguejava com o homem do rádio. Talvez, não consegui pensar em mais nada, pois, quando dei por mim, já ele tinha a língua no meu ponto de prazer, e um misto de satisfação e insânia invadiu-me o corpo de rompante, fazendo-me arquear as costas violentamente. Sabia que ele olhava para mim. Tinha a certeza de que enquanto passeava a sua língua, os seus olhos encontravam-se fixos no meu rosto. Porém, só tornei a mirar-lhe a face quando acomodei-me por cima do seu corpo e o beijei até os nossos pulmões perderem o fôlego e os nossos lábios se encontrarem totalmente mergulhados no frescor das nossas salivas.
Passo a minha língua pelo seu torso e sinto o seu coração palpitar por baixo dela. Ele acaricia-me os cabelos e com os olhos fixos nos olhos dele, continuo a descer. Paro por baixo do umbigo e observo a sua expressão. Ele olha para mim sorrindo, e quando ele sorri, pequenos pés de galinha se formam em cada canto do olhar. És lindo, penso comigo, mas não és o tal. Continuo a descer e logo me deparo com a vivacidade do seu membro. Tudo o que ele pensava naquele momento, ia dar ali, na erectilidade do seu ponto de prazer. Levo-o de encontro ao céu da minha boca, e faço-o alcançar as estrelas. Ele suspira a alto e bom som e eu sorrio. Alterno a minha atenção entre o seu rosto e o movimento dos meus lábios. Ele grita: «Pára!» e eu não paro. Quero que supliques para que eu pare, quero que me puxes pelos cabelos até sentires a minha respiração no teu pescoço. E é exactamente isso que fazes, lês-me os pensamentos enquanto te engulo. Chupas-me a carne dos lábios com fúria enquanto te enfias dentro de mim. Sinto-te morno. Ao fim da tarde, abraço-me à exaustão do teu corpo e adormeço com a cabeça junta ao teu peito. Não aconteceu nada, nada disso é verdade. Antes de tu chegares, eu disse a minha mãe que não estaria em casa. E não estás, respondes-me enquanto vestes a camisa. Nós nunca estivemos aqui.

( Pronto, fiz um esforço. Mas não se surpreenda se daqui....hum...48 horas este post não estiver mais aqui. Ainda nem sequer postei e já estou arrependida......hahahaha)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Homem do Lago

( Aveiro - c/áudio)


Há um parque mais ou menos próximo de tudo. Todos passam por lá. É bonito, é quieto, é verde. O chão é feito de terra escura e escorregadia. Todos escorregam, mas ninguém cai. As mãos agarram-se automaticamente nos ombros do desconhecido que por algum motivo nos acompanha, ou então, seguram-se nas verdes grades de ferro que circundam o extenso lago do parque. Os que vão sozinhos confiam apenas no equilíbrio do seu corpo. E há aqueles que não o fazem, por isso, ficam-se pelos bancos de concreto, junto aos patos. Cada um num banco. Mesmo aqueles que desistem acompanhados, desistem com cinco bancos de distância. O intervalo que os separa é mínimo aos olhos dos que caminham, ínfimo aos que correm e incrivelmente extenso àqueles que permanecem sentados.
Quem se senta fixa-se nas aves do lago, nos altos e largos troncos das árvores, no enlamear dos sapatos brancos e dos saltos agulha, ou no mover das águas verdes e musguentas, agitadas pelas asas. Quem caminha escorrega, mas não cai. Quem corre, não escorrega, não anda e não vê. E quem se senta, repara que no último banco logo à direita, encontra-se sentado o homem que ali estava ontem e na semana passada, e que por acaso também ali se encontrava há dois meses atrás, quedo, fixado num ponto qualquer. Só me dei conta da sua existência quando deixei de correr e passei a andar junto ao lago. Neste dia, ele deu-se conta de mim também. Ao fitá-lo pela primeira vez, pensei que ele gostava dos patos, mas quando me sentei, numa outra vez, dei-me conta que não eram eles o seu alvo. Os seus olhos seguiam as aves numa só direcção: viravam-se para a direita, mas não retornavam quando elas seguiam para o lado oposto.
Ele tinha o cabelo comprido, louro, grisalho, desfeito, e trazia sempre um saco plástico cheio de qualquer coisa que até hoje eu não sei o que é. O que me intriga no homem do lago, é que ele trás vestido um terno quase sempre impecável, o que contrasta com a sua barba grisalha e manchada. Seria um mendigo vestido de empresário, ou um empresário disfarçado de mendigo. As mãos que se estendem estão sujas de lama, ou enlameados encontram-se os meus olhos junto ao chão? Não importa. Depois do meio-dia, nossos olhos descaem. Não de sono, nem de cansaço, apenas descaem. Estejam sujos de lama ou não.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O vazio é uma árvore de eucaliptos esguia e pesadamente imensa. Ninguém dá por ela até cair no nosso solo. Até sentirmos o chão que nos sustenta cortar-se ao meio e os galhos atingirem as outras árvores à nossa volta. É curiosa a sensação de já termos chegado ao fim da meta sem sequer sairmos do lugar. De corrermos às voltas quando o circuito é em linha recta. De deitarmo-nos de barriga para baixo porque o céu caiu-nos aos pés. De andarmos de pernas para o ar porque elas apenas caminham, enquanto os dedos apontam e os braços suportam o peso da sina. Ou de caminharmos de cabeça baixa porque o sol derreteu-nos o pescoço e os olhos não se voltam para cima. A verdade é que há quem (só) se dê conta do vazio, quando (já) não existem eucaliptos para cair.

Fiar-se na luz é desiludir-se quando a chama se apaga. Sempre achei curiosa a sensação de não se sentir nada, sendo que, o nada é sentir-se desabitado e desabitar-se é deixar fundir as lâmpadas. É odiar a claridade porque ela esconde o que o negrume evidencia, e enegrece o objecto que ofusca. Desabitar-se é sentir-se inconformado com as sombras e apagar as luzes. Como se as sombras se apagassem e voassem para longe. Como se as sombras se apagassem. Como se eu pudesse deixar de ser a distância entre mim e a minha própria sombra. Como se nós, de repente, nos tocássemos.

O perfume do eucalipto lembra-me algo que eu nunca retive na memória. Traz-me a lembrança o cheiro de terra batida com o corpo de duas crianças deitadas na lama. Deitadas de barriga para baixo, porque o céu enegreceu e hoje é terra. As crianças esfregam o corpo no chão, enquanto pensam estarem no céu. E comem terra, porque as nuvens são feitas de lama.

Existem dois tipos de sem-abrigo: aqueles que só conseguem adormecer encostados à parede - porque ela é o único apoio sólido em meio a tanta opacidade; E eu, que me sinto como se fosse uma lanterna fundida que não troca as pilhas, pois é curioso ver o escuro acender-se enquanto a luz se apaga, e é estranho ver-me apagar perante a luminosidade do dia...