quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cálice


O despertar para a realidade é lento.
As janelas abrem-se vagarosamente
Enquanto os olhos permanecem fixos
Num ponto negro.
As retinas estão secas,
Coladas à orbita de um Planeta
Que não gira há muito tempo.
E as lágrimas escorrem, impassíveis
Ao deserto de folhas secas
Que trago dentro do meu peito.

De repente,
O sol luzente dos teus olhos
É o causador das minhas chamas e aguaceiros.
Eu desperto com o teu cheiro
Impregnado à minha carne mal amada,
E me despeço.
Abro as janelas, sinto o vento
Apunhalar-me toda a face
E me desfaço.
Lanço-me do penhasco de concreto
E te venero.
Rogo pragas à tua alma
Enquanto caio.

Despertar para realidade
É assassinar o meu amor a sangue frio.
É cortá-lo aos mil pedaços enquanto esvaio.
É enxotá-lo de um coração desamparado
Sem dar por isso.

Despertar para a verdade é fazer do ódio
A realeza.
É acordar pelas metades
Enquanto os meus opostos
Se afogam na tristeza.
É tecer-te sonetos de amarguras
Enquanto me esvaeço em dolências.

Adorar-te, é corromper-me de propósito
Com o feitiço de um cálice entornado.
É deitar-me neste leito de águas fundas
Enquanto velejas nos meus mares assombrados.
É deixar-me morrer, abandonado,
Enquanto te ensaboas nas espumas 
Do meu fado.


2 comentários:

Le Vautour disse...

Maravilhoso, sobrinha, maravilhoso.
A sinestesia é perfeita, as imagens são fortes, as oscilações são estonteantes: subi, despenquei, e olhe que tenho minhas asinhas, hein?
Num só momento vi um quadro como "O Grito", vi "O Vôo de Ícaro", alguns de Picasso e fragmentos de paixão avassaladora.
Quem escreve assim vivemorre, renasce, deitacorda, morrevive, caiascende e faz isso com seu leitor.
Amei. É para ler muitas vezes.

p.s.: não vá pensar que estou traindo você! Hahahahahaha

Cosette disse...

Traição??! Nãaaaao...eu nuuuuunca pensaria uma coisa destas....! Enfim, eu engulo.