terça-feira, 23 de fevereiro de 2010



Esquecendo os meus segredos, eu não passo de um esqueleto. De um corpo poluído pelo fumo das usinas, sem importância nem propósito de vida. Carregando os meus segredos, eu sou um esqueleto fundido noutros tantos esqueletos que carrego. Sou a porta aberta de um armário velho e apodrecido, cuja chave fora engolida pelas entranhas de um Deus amargurado. Eu sou um armário sem fundo de ossos humanos. A terra que encobre os esqueletos sempre que tentam fechar a porta do armário. Um calabouço de segredos sórdidos e profanos onde os meus pecados se acasalam com os dos outros.

Os meus olhos ainda lacrimejam lágrimas de pó quando eu olho para as fotografias do armário. Quando eu olho e vejo que em cada uma delas há, pelo menos, um morto. Mortos que sorriem, que me carregam ao colo e dormem. Vejo mortos em todo lado sempre que me debruço sobre os álbuns de fotografia. Recordo-me de ouvi-los dizer o quanto eu era bonita. Todos acenavam com a cabeça, dizendo que sim, enquanto aqueles que ainda hoje estão vivos, sorriam. Lembro-me de ser sentada no chão, ao lado das pernas dos mortos, e de eles olharem para mim com afeição. Nem todos eram parentes. Com o tempo, eu me apercebi que havia nascido para ter duas famílias: aquela que partilhava comigo o mesmo tipo sanguíneo, e aqueles que dividiam comigo as suas almas. Estes sim, morreram quase todos, deixando para trás aquela criança que não engatinhava como todas as outras crianças, pois optava por sentar-se com as pernas cruzadas e ir se arrastando pelo corredor.

Os corredores, quando somos crianças e ainda não chegamos ao interruptor, parecem-nos sempre desmedidamente grandes. Vemos os nossos pais afastarem-se momentaneamente dos nossos corpos, e conforme vão se afastando, vão se tornando cada vez menores aos nossos olhos. Quando somos crianças, somos pequenos passarinhos contemplando o voar dos mais velhos no horizonte. Do cimo da árvore, apoiamos a cabeça na borda do ninho e olhamos lá para baixo com medo das alturas. Assustamo-nos com os galhos, com as flores e o cair das folhas. Ansiamos pelo regresso daqueles que partiram logo pela manhã.

Todos nós temos segredos. Os contáveis e os que não se contam. Os que podem ser passados de boca em boca, e aqueles que são levados connosco até ao túmulo. Quando passo pelos cemitérios, a primeira coisa que me vem a cabeça é a curiosidade de saber quantos segredos estão ali enterrados. Olho para as criptas e imagino os meus próprios epitáfios. Pergunto-me o que dizem as vozes que não conseguimos ouvir. Silencio-me, porque eu sou um túmulo de segredos que ninguém consegue abrir. 

5 comentários:

Le Vautour disse...

Corredores longos, interruptores que não alcançamos, família de sangue, família de alma - ué, estes se foram?
Esqueletos sobre esqueletos. Yorik era aquele bobo da corte que motiva, em Shakespeare, o "to be or not to be".
O seu "ser ou não ser" é sempre maravilhoso.
Segredos que não se desvendam? Qual, por exemplo? Um sorriso? Dentes sob os lábios sisudos? Covinhas? Ou seriam as regiões abissais da alma, imperscrutáveis e só penetráveis aos poucos?
Quem há de saber?
Que tal pegar esse saco de ossos e entregar lá para o Stephen King, levando a vida adiante?
Há mais segredos entre seus heterônimos do que pode crer a minha vã filosofia?
Toda interrogação, quando se desentorta, vira exclamação. Só que quando se cansa pode virar apenas um ponto. Period
Abraços de duas asas aos dois abutres, digo, aos dois autores hehehehe

Jean Valjean disse...

Seus textos são difíceis de comentar, sobrinha. Optar por ser diferente... ou você era, apenas e tão-somente, diferente? Ego sum qui sum.
Ah, vou deixar o comentário deste texto para alguém que lhe compreenda melhor a mente. Você anda fugindo à minha alçada!
Só que há uma coisa interessante: as vozes que mais me dizem são as que não consigo ouvir, senão "captar" na acústica da mente.
Abreijos do tio!

Cosette disse...

"Segredos que não se desvendam? Qual, por exemplo?" hahahahaha adorei essa sequência!Oh meu querido Vautour, se não se desvendam, eu nunca te poderei dizer quais são!E nem queiras saber.
Não, estou dramatizando, não sou assim tão podre. A minha lista não é tão negra.
A minha alma ama um drama, e isso nota-se quando escrevo essas baboseiras. Quando termino, penso: " Que mentira! Quem foi que disse isso?"
Já F. Pessoa dizia que o poeta era um fingidor. Bem, eu finjo a dor que deveras sinto.

E quanto ao meu tio, não me venhas falar em "alçadas" que sempre quando sobes esse QI, eu tenho que pedir para desças um bocadinho.....bocado....bocadão.
Beijinhos nos dois.

Jean Valjean disse...

QI? Tipo assim 'Quanta Ilusão"? ou então 'Quimera Inútil"?
Olha, preferi, à minha, a interpretação comentada e indagadora do Vautour, acerca de seu belo texto. Estou começando a gostar desse abutre aí, que às vezes nos chama de autores e às vezes nos alcunha abutres também.

Jean Valjean disse...

Ah, ia esquecendo: o Vautour até que leu Hamlet com atenção, e deve ter estudado algo, pois a caveirinha que Prince Hamlet pega nas mãos era, efetivamente, de Yorik, um bobo da corte.
Valeu, Vautour! Baixe mais vezes aqui, mas continue estudando, pois se o cérebro para as perscrutações, o ser-humano estagna.