sexta-feira, 9 de abril de 2010

Eu gosto dos que ardem, dos que caminham pelos mesmos caminhos em que se esvaem.
Dos que não desistem, nem se cansam de se desencontrarem.
Eu gosto dos reencontros dos que nunca se perderam. Dos sorrisos amarelos dos que se amaram até a morte. Gosto da morte e dos seus dentes amarelos.
Dos que amam pela metade, inundando a outra com os seus ecos.
Gosto dos quebrados, dos que mancam, dos que não temem seus flagelos.
O choro corrosivo dos que pecam escorre pelo rosto do Criador. Eu bebo suas lágrimas no meu cálice chamuscado.
Eu peco porque sou um dos Seus maiores pecados.


Eu gosto dos que ardem, dos que escorrem pelas paredes, dos que caem.
 Caminho de mãos dadas com os espectros que me invadem. Num dos braços, carrego uma cruz virada ao contrário; no outro, o sol me torra toda a carne. 
Dentro de mim, minhas desilusões dançam aos pares; lá fora, o silêncio gagueja seus pesares. 
Murcho feito uma rosa seca, enxuta e definhada enquanto tudo arde. Respiro o fumo expelido pelos meus suores e, de dentro para fora, ardo.
Torno-me carvão entre meus deslizes e clamores. Abraço-me à  fogueira antes que me matem. 
Sou pó, fuligem e miragem. 
Eu gosto dos que ardem, dos que desmaiam, dos que se deixam mastigar pela fome dos danados.

4 comentários:

Jean Valjean disse...

Transportou-me para algum dos círculos do inferno de Dante. Depois eu penso na questão 'para qual deles'.

Le Vautour disse...

Ah, eu fui do segundo ao quinto, passei pelo oitavo e depois voltei para os ventos fortes do segundo. Que tal? Magnânima forma de dizer...

Sarah Slowaska disse...

Cosette: parabéns! Tens aqui dois aduladores de peso! Digo isso porque
eu não fui a lugar algum! Fiquei aqui, paradona!

Beijos e abraços ;)

Jean Valjean disse...

Sarah, você não era dada a ceninhas de ciúme. Minha sobrinha escreve maravilhosamente e nos transporta, sim! Deixe-se levar pelos eflúvios da moça!