terça-feira, 6 de abril de 2010

Só com o tempo se conclui

O Professor Huberto Rohden dizia muito mais haver-se arrependido por falar do que pelo fato de haver calado. Eu achava lindo, sob o prisma filosófico, psicológico, e até antropológico. Hoje é fa(c)to consumado: nunca, nunca mesmo me arrependi de calar-me.
O amor, que Vinicius dizia importar ser infinito enquanto durasse, pois que, qual chama, não podia ser imortal. Lindo como poesia, imagem, reflexão. Hoje é dia-a-dia. Já vesti e desvesti tantos amores, que não sei em que guarda-roupas deixei minha última fantasia. Todos foram sinceros. Todos foram eu. Porém, não sou mais aquele eu. O que amou ficou lá, pendurado em algum armário, e continua sincero; apenas não o reconheço mais.
"Que tão cedo de cá me leve a ver-te quão cedo de minh'alma te levou". Magnânimo, sob a ótica poética, embora falso, enquanto argumento retórico e da alma: foi? Foi. Eu fico, Irineu: antes tu do que eu! Continuo pensando assim. Camões era um pegador. Começou com "alma minha" e o cacófato não o deixou superar o dolus bonus.
"Sua alma subiu ao céu, seu corpo desceu ao mar." Quando li isto em Alphonsus, fiquei extasiado. Chorei. À época, descer o corpo ao mar era, para mim, a certeza de que a alma subiria ao céu. Aí vieram as histórias de piratas, veio a vida, veio a puta que nos pariu, e... só poesia, mesmo. Pode ser que o corpo desça ao mar e a alma às regiões abissais do inferno.
A vida vai passando, e o livro que vimos escrevendo vai-se revelando aos nossos olhos como o único que fica, para o fim da existência. Os outros são só coadjuvantes. Minha Divina Comédia é o meu traçado por este mundo. O resto...

2 comentários:

Dama de Cinzas disse...

Lindo seu texto! Gostei especialmente dessa parte:

"á vesti e desvesti tantos amores, que não sei em que guarda-roupas deixei minha última fantasia"

Acontece comigo tb... rs

Beijocas

Cosette disse...

É, querer transmutar a poesia em realidade, não é boa ideia.
Existem coisas que só são bonitas no papel. São feitas para o papel, não necessariamente para nós.