quarta-feira, 19 de maio de 2010

Contradigo-me. Não é que eu sinta prazer em desmentir-me diante da plateia que me aplaude. É que as minhas certezas anulam-se a medida que as minhas dúvidas eclodem.
No meio da noite, quando encosto a cabeça na almofada mais mole, os aplausos cessam e o silêncio evidencia o que eu sempre soube: o público que me enaltece é o mesmo que me chacota.
A vida, meu bem, é um teatro a céu aberto. E para representá-la, é necessário desnudar-se de qualquer firmeza, pois aqueles que tudo sabem são desbenvindos.
Quando acordo, não me pertenço. Sou o pouco que sou e, ainda assim, me desconheço. Quem sou eu para demandar sobre a origem de qualquer coisa, se eu sou uma turista dentro de mim mesma. Caminho pelas tortuosas avenidas de pedra, olhando para o alto, admirando os monumentos que construí, enquanto tropeço nas ruínas de tantos outros que eu nunca soube existir. Dentro da mochila, carrego palavras pesadas de tão vazias que são. Nada querem dizer, pois eu sou o significado de algo indefinível. Eu sou o vazio que preenche o nada. Tentar entender-me é conseguir entranhar a luz na sombra, fazendo com que esta se ilumine. Sou impossível, inatingível, uma quimera. Sempre que me olho, sinto-me como Narciso tentando encontrar-se. E quando penso me ter desvendado, voo com as asas de Ícaro - não para o céu, que este não me pertence - contra a parede de concreto que me separa daquilo que poderia vir a ser Eu. Poderia vir a ser, talvez não fosse. Talvez o espectro que sobrevoa o lado oposto da muralha, não passe de uma sobreposição de imagens idealizadas, todas elas, por mim.

2 comentários:

Jean Valjean disse...

Opa, este me pegou pela alma. Contradizer-se é absolutamente necessário! "Nada mais conforme com a razão do que a retratação da razão" (Pascal, em Pensamentos).O anular-se das certezas diante da eclosão das dúvidas é Wittgenstein puro!
"O público que me enaltece é o mesmo que me chacota." Ei, ei, ei, exclua-me desta lista, pois que me encanta seu raciocínio (seu coração também).
Pois é... a vida é mesmo um teatro a céu aberto. Os que tudo sabem não entenderam isso ainda. Além de serem perfeitos, têm mais um defeito: a presunção exacerbada.
Turista dentro do céu aberto de si mesma? Não se pertencer quando v. acorda é o rumo do filho pródigo. O momento de epifania, em que o choque do passado nos pega pelas costas, e temos de percorrer o caminho do futuro. Tortuoso. Desconhecido... tropeçar nos monumentos que construiu - início do movimento iconoclasta interior. Monumentos desconhecidos: subconsciente, ídolos ancestrais. Aí o imaginado contrasenso 'claro-escuro', ser-não-ser, etc.
Narciso: desse aí é bom termos um pouco. Acho até que sem um tantinho dele não viveríamos. Mas nada em excesso. Ícaro: ah... o símbolo da liberdade, bata onde bata. Amo o cara.
Muralhas? Justo para você? Só as que você aceita fiquem em pé. Caso contrário...

Le Vautour disse...

Nada mais a falar. Assino embaixo os dizeres de Valjean.
Amplexo afectuoso!