terça-feira, 4 de maio de 2010

Vivo num jogo de luzes, onde a luz ilumina a sombra que escurece a claridade que me ilumina sem que eu precise trocar as lâmpadas. Na parte iluminada, reflecte-se a minha metade corrompida e corroída pelas sombras minguadas que me habitam. No canto escuro, vê-se a insistência dos feixes de luz em iluminarem o pouco que me resta. Os olhos ardem, não porque a luz me invade, mas porque estou sentada à sombra. No escuro, os corpos se dissolvem e se transformam em pó. No sol, os olhos ardem. Sentar-se na faixa longitudinal, na transparência da linha que separa a luz da escuridão, é viver em ebulição. É lançar parte do seu corpo na fervura, enquanto a outra, aquela que se encostou na metade obscura, se dissolve.


3 comentários:

Jean Valjean disse...

Esta é a minha sobrinha, que me enche de orgulho. Cheia de raciocínios aristotélicos que eu só consigo ter agora, às vésperas da 3a idade... eitxa mundo, hein? Deus é injusto mesmo! Esta parte, tomo a liberdade de analisá-la:
"Vivo num jogo de luzes, onde a luz ilumina a sombra que escurece a claridade que me ilumina sem que eu precise trocar as lâmpadas. Na parte iluminada, reflecte-se a minha metade corrompida e corroída pelas sombras minguadas que me habitam. No canto escuro, vê-se a insistência dos feixes de luz em iluminarem o pouco que me resta. Os olhos ardem, não porque a luz me invade, mas porque estou sentada à sombra".
Trata-se de um misto do mito da caverna com a sua prossecução: a saída da caverna. Nem sei se você pensou nisso quando escreveu, ou se isso está tão dentro da sua alma que apenas brotou, naturalmente, como a água, nas fontes.
Quando estamos dentro da caverna, depois da fase de apenas olhar os vultos na parede do fundo, começamos a ter problemas com o afrontar a luz. Desde o fenómeno óptico do deslumbramento, até o medo da própria sombra, e esta nos querer puxar de volta... os olhos ficam feridos, pois estávamos no escuro; tentar voltar à sombra é, a um só tempo, tentador e medonho. Esfarelamo-nos em conflitos conscienciais brutais, e o jogo antagônico de luzes e sombra, que você descreveu também, é sim a fuga do Homem à sua pequena condição animal, para passar a ser racional. Parar no racional? Nem pensar. Então, outro choque: o da pretensão que todos temos de suplantar a mera inteligência e atingir a razão, o equilíbrio da alma. E vem aquela sede eterna de crescer, e a ebulição é inevitável.
Nada mais a acrescentar, senão um sonoro putaquepariu!!!

Cosette disse...

Putaquepariu digo eu!
Sobrinha de peixe, peixinha é.

Le Vautour disse...

Concordo com o Jean, e não com a Cosette. Ele é peixinho, você, querida, é tubarão!!!!