sábado, 15 de maio de 2010

Ricos, pobres... que seja. A questão não é essa.

É irritante quando ouço alguém dizer que o dinheiro não traz felicidade. Bem, a mim traz, e muita! Somos bem mais felizes quando vemos algo que queremos e sabemos que podemos comprar, do que quando nos deparamos com algo que está muito além do nosso alcance.
No que toca a alma, o dinheiro é passageiro. Isso quando a alma é vazia. Mas quando ela é plena, o dinheiro traz felicidade sim, traz realizações, materializa sonhos, nos livra de preocupações primárias que já nem sequer deveriam existir.

Há poucos dias, estava conversando com a minha mãe a respeito disso:
Os meus pais vieram de famílias simples, apesar de o meu pai ter tido mais oportunidades do que a minha mãe. Em compensação, ele perdeu a mãe aos 19 anos, idade em que saiu de casa por não suportar o ‘irmão’ e por a relação dele com o meu avô não ter sido nunca das mais amigáveis. A minha mãe, com muito sacrifício, conseguiu terminar o colegial – coisa que o meu avô não era muito favorável, pois, para ele, os filhos tinham que trabalhar para devolver o dinheiro que os pais haviam gasto com eles. Cabeça de cearense, vai-se entender. Continuando, quando os meus pais se conheceram, minha mãe tinha 22 anos e o meu pai 29. Ele era divorciado e tinha os três animais com a outra mulher (eu tou parecendo o Vautour, falo, falo, falo e não digo nada).
Adiante, lá para finais de 1990 os meus avós maternos ganharam um terreno num bairro social e, logo a seguir, o meu avozinho paterno ganhou outro na rua ao lado. Continuando (tudo isso é para explicar que a pobreza não traz felicidade. Calma, eu chego lá!), os meus pais viviam no alto da cidade, mas a dona da casa queria a residência de volta. Eles, pegos de surpresa e sem maiores opções, foram para a casa que o meu avô paterno havia ganho (ele vivia em Minas, por isso a casinha estava desocupada). E assim foi. É escusado dizer que a minha mãe sentiu o maior desespero, pois mudar do alto da cidade, parte nobre, para um bairro social (apesar que, na época, os bairros sociais eram decentes, não se confundiam com o inferno que são as periferias hoje) foi um choque sem precedentes.

O meu irmão e eu, pequeninos, adorávamos aquela casa. Ela era de esquina, por isso, o quintal era enorme, com um caminho cimentado e o resto com aquela terra vermelha, óptima para se sujar e para manchar o banheiro e as toalhas rendadas da mamãe. Vivemos lá….de 1991 à 1997, se não me engano. Dentro deste espaço de tempo, o meu pai ganhou uma casinha também, e resolveu fazer um sobrado. Um sobrado de esquina, cozinha enorme, quintal grande, piscina com cascata, escritório por cima da garagem, garagem com espaço para uns 5 carros (se o meu pai não a tivesse abarrotado com ferramentas dele e do meu avô), sala de jantar, sala de som, sala de televisão, quatro quartos e cinco banheiros.
Pois é, dito assim, tudo parece muito bonito, mas não foi. A minha mãe conta que a vizinhança morria de inveja. De certo modo, é compreensível: num bairro inteiro, eramos os únicos com condições de transformar uma casinha de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, num sobrado de grandes dimensões. As vizinhas, inconformadas, chamavam os fiscais um dia sim e outro também, inventando queixas e tentando impedir a conclusão das obras. Isso só parou quando o meu pai fez queixa contra o fiscal que lá ia (que, só por acaso, era pai da nossa vizinha da frente).

Quando nos mudamos para lá, nos finais de 1997, já existiam mais casas mas nós continuávamos sendo a única família com um sobrado. Depois, a vizinha ao lado fez um sobrado também, e os amiguinhos que antes se juntavam à ela, para fazerem queixa contra nós, uniram-se contra ela porque “não queriam viver rodeados por arranha-céus.” Pobre é invejoso, putaquepariu. O problema não está em ser pobre monetariamente, o problema é não ter nada por fora, e ser vazio por dentro. Pobre não pode ver um vizinho subindo o muro, que já acha que o outro está traindo a comunidade inteira. Puxa o outro para baixo, pois não aceita viver na foça sozinho.
Nós não mantivemos amizade com quase ninguém. E o meu pai tinha sido o mais afectado com tudo isso.Fomos embora em 2002. Ainda hoje ele diz: “ Eu tinha que tirar os meus filhos daquele meio. Se eu não saísse de lá, ou morria ou matava alguém.” E o pior é que eu não duvido. Em Santo André, ele matou todos os gatinhos da região. Eles arranhavam os carros e acabavam com os telhados, e a solução que ele encontrou, foi fazer uns bolinhos evenenados, sabor: sardinha. Ninguém, para além da minha mãe, ficou sabendo disso. Quando um rapaz disse que o havia visto colocando algo perto das árvores, ninguém acreditou. “ O Sr. Fulano de tal? Nãao, nem pensar! Ele é tão simpático, tão educado! A mulher dele adora gatos! De jeito nenhum! “ Ele parou de fazer isso, no dia em que uma das vítimas foi o gato de uma menininha que o meu pai adorava (adorava porque eu ainda não havia nascido, é claro). Hoje ele se mata de rir disso tudo, e quem o escuta não consegue manter a seriedade.
Voltando ao tema inicial, para finalizar, se o dinheiro não trouxesse felicidade, ninguém se preocuparia em ganhá-lo. Ninguém se mataria por ele. Agora os politicamente correctos diriam que o dinheiro não compra amor, família, amigos, ventura, etc. Eu concordo, não compra mesmo. Nada compra. Mas também não é a pobreza que traz tudo isso. Como é que se consegue ser feliz num meio em que tudo é tão degradante? Em que as pessoas são vãs ao ponto de desejarem que o outro não cresça na vida? O dinheiro não compra a felicidade, mas a felicidade também não compra o Lamborghini que eu quero ter na minha garagem. Eu sei, na verdade, nada disso tem a ver com a riqueza em si, mas com a pobreza de espírito, e isso nenhuma conta bancária enriquece.

7 comentários:

Jean Valjean disse...

Hm... coisa complicada, né? (com sotaque japonês)
Acho que é isto a diferençar a inveja (na concepção de Sto. Tomás de Aquino) da "vontade de ser como alguém". A inveja, segundo Sto. Tomás, o pecado capital por excelência, é justamente isto: "in" = prefixo de negação 'não' + 'veja' - 'videre' do verbo 'ver'. Quem inveja "não" quer "ver" o bem do outro.
Viu a sutil diferença entre inveja-pecado-capital e 'competição saudável'? Na inveja alguém vê o outro correndo e quer lhe passar o pé; vê subindo e quer amarrar-lhe pedras, para que não alce voo. Na emulação saudável, há o desejo intenso de progredir. Vê-se alguém que é 'role model' e se deseja ser como aquele alguém é: admira-se aquele alguém, vê-se nele uma inspiração, e jamais um alvo. E aí se quer ser como aquela pessoa.
Infelizmente, a inveja ainda reina pelo mundo. Sou mais a luxúria! Hahahahahahahahahaha
(e você, que fica 'on line' na cama, pelo visto, também...)

Jean Valjean disse...

Quanto à questão do dinheiro, se ele traz felicidade, a resposta é 'não'! Você liga para a felicidade, paga com o dinheiro e recebe tudo em delivery hahahahahahahahaha! É o que o povo aqui 'das redondeza' diz: o $ não traz felicidade, manda buscar.

Jean Valjean disse...

Cinco banheiros? Uia, dava pra ter disenteria à vontade, né? hehehehehehe
Ou prisão de ventre. Os coprostásicos sofrem, pois às vezes têm de ficar sentados no trono meia hora, até conseguirem conceber um minúsculo charutinho de marzipan. Hahahahahaah, hoje estou maus.

Cosette disse...

Hahahaha! Segundo a minha mãe, estas pessoas têm que tomar muito yogurte. Aí já funcionam direitinho, ora pois.
Activia ajuda, Yakult ...Ah, delícia, já não bebo Yakult há anos.

Jean Valjean disse...

Hm... Yakult. Toda hora eu bebo, pelo prazer de sentir aquele gostinho danado de bom. Activia: esse é pra c*g*r mesmo. Eu revezo com o Batavo Biofibras.

Le Vautour disse...

Cô, o dinheiro não traz felicidade: leva-nos até ela. Ui!

Cosette disse...

Vautour, verdadinha ! :)

Tio,espero que o próximo Yakult te vire do avesso da maneira descrita num dos teus últimos textos!
Isso é para você parar de judiar das minhas lombriguinhas.