quinta-feira, 4 de março de 2010



 Durante cinco anos, eu tive um vizinho cego que dizia enxergar somente aquilo que queria ver. Durante cinco anos, o invejei, não porque era cego, mas porque enxergava melhor do que eu. Um dia, ele perguntou-me o que eu trazia vestido, e eu respondi: uma calça preta e um casaco azul. Inocentemente, tentei explicar-lhe de que cor era o azul. Que o azul era a cor do céu, do mar e da bermuda que ele trazia vestida, mas que o azul do céu era mais claro do que o azul do meu casaco, e que o tom do mar tinha um bocado de verde. Lembrei-me em seguida que ele não sabia o que era o claro, porque desde que nascera vivia em total escuridão. Os meus olhos dilataram e ele sorriu. Comentou que o dia estava nublado e que sentia um cheiro azul-escuro no ar. Eu olhei para cima e concordei. Naquela tarde, não havia pássaros no céu.

2 comentários:

Le Vautour disse...

Esse aí é um visionário. Quem me dera enxergar metade do que ele enxerga.
Abraços de duas asas!

Jean Valjean disse...

Eu vejo em parte, ele vê face a face. Qualquer coincidência com o título do blog é... hm... é...