terça-feira, 16 de março de 2010

Nicolau.... O (meu) Príncipe

“Não desconheço que muitos têm tido, e têm, a opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de modo a que a prudência dos homens nãos as poderia corrigir nem lhes ofertaria algum remédio. Dessa maneira, poder-se-ia pensar que ninguém deve se importar muito com elas, deixando-se simplesmente reger pela fortuna. Essa opinião é muito aceite na nossa época, pela grande variação das coisas, o que se percebe diariamente, fora de toda a conjetura humana. Em algumas ocasiões, quando considero o assunto, tendo a aceitá-lo. Apesar disso, e uma vez que o nosso livre-arbítrio permanece, acredito poder ser verdadeiro o fato de que a fortuna arbitre metade das nossas ações, mas que, mesmo assim, ela nos permita governar a outra metade quase inteira. Comparo-a a um desses rios impestuosos que, quando se enfurecem, transbordam pelas planícies, acabam com as árvores, as construções, arrastam montes de terra de um ponto a outro; tudo foge diante dele, tudo se submete a seu ímpeto, sem conseguir detê-lo, e, embora as coisas aconteçam assim, não é menos verdade que os homens, quando a calmaria retorna, são capazes de fazer consertos e barragens, de sorte que, em outra cheia, aqueles rios estarão correndo por um canal, e seu ímpeto não será nem tão leve nem tão nocivo. Assim também se passa com a fortuna; seu poder se manifesta onde não há resistência organizada, voltando ela a sua violência apenas para onde não se construíram diques nem se fizeram reparos para contê-la.
(…)
No entanto, limitando-me aos casos particulares, digo que hoje se virifica o êxito de um príncipe, e amanhã a sua derrota, sem que se verifique mudança em sua natureza, nem em algumas de suas qualidades. O motivo, acredito, como disse antes, é que, quando o príncipe se apoia apenas na fortuna, arruína-se de acordo com as variações daquela. Julgo feliz, também, o que harmoniza sua maneira de agir com as características de cada época, e infeliz aquele cujo modo de proceder discorda dos tempos. Quanto aos caminhos que os conduzem aos objectivos buscados, ou seja, glória e riquezas, procedem os homens, habitualmente, de formas diversas: um com prudência, outro com impetuosidade, um pela violência, outro pela astúcia, um com paciência, outro com a qualidade contrária, e cada um, por esses modos diferentes, pode chegar àqueles objetivos.
(…)
o homem prudente, quando chega o momento de agir com impetuosidade, não sabe o que fazer, e por isso vai à ruína, pois, se alterasse sua natureza, de acordo com a época e as coisas, não mudaria de sorte. “



Os Pensadores, Maquiavel, Cap XXV “ De Quanto Pode a Fortuna nas Coisas Humanas e de que Maneira se deve Resistir-lhe” - pags: 143-145

3 comentários:

Le Vautour disse...

Eu amo essa obra. Quando brincam e dizem que alguém é maquiavélico, deveriam pensar bem no que falam, pois sê-lo pode significar ser desde muuuuiitooo bão até muiiiitooo mau.
Nénão?

Cosette disse...

É sim! Foi exactamente isso que eu pensei quando terminei de (re)ler este capítulo :)

Jean Valjean disse...

Ué, de novo o comedor de carniça aqui? Nem me deixou espaço para comentar.
Cosette, dá uma sopa pra ele (a sopa da mamãe, é claro), pra ver se ele sobrevoa outras plagas, que não estas.