terça-feira, 9 de março de 2010

Resposta ao: "É aqui que me escondo"


Que raio. Insónia que não passa. Antes de tomá-los, pensava que os calmantes ajudassem a dormir. Eu me enganei, mas quem se importa? Eu vivo me enganando em tanta coisa.
Agora são quase 4 da manhã. Eis que salto da cama, alimento os meus cãezinhos virtuais - que arrumei num site qualquer e que, se bem me conheço, logo serão deletados – e me deparo com este texto. Que susto. Não sei bem a razão – ou talvez até saiba e queira me convencer que não sei – mas senti como se tivesse acabado de ler uma carta de um suicida. Li uma segunda vez, para provar a mim mesma que suicida era o estado da minha mente, e não quem escreveu. E foi como se uma onda me tivesse atingido a nuca, fazendo com que eu mergulhasse na escuridão do mar profundo e ficasse presa pelo dedo mindinho no dedo mindinho de alguém.
Ainda com a mesma sensação, pensei: Pronto, ele não volta mais. Depois pensei: Volta, afinal aqui é o seu tugúrio. Depois, afastei as minhas cogitações e tornei a ler. Desta vez e a partir daí, deixei-me ser invadida pelo meu tão famoso, adorado e, por vezes, discutível instinto protector. Sim, eu tenho por hábito abrir as asas e esticá-las o máximo possível para meter debaixo delas quem eu quero bem. Por isso, se queres andar nas sombras, protegido, sem ser importunado ou agredido, permita-me colocá-lo, então, debaixo delas. Que eu prometo, mas prometo mesmo, com todas aquelas tretas que envolvem as promessas, que jamais alguém tornará a importuná-lo.
Oh tio, a tua cabeça de nada me serve se não estiveres dentro dela. É exactamente o facto de tu seres esta imensidão que desconheces, que faz com que eu deite a minha cabeça no teu colo e disseque o meu cérebro com a merda que tenho impregnada nas minhas mãos. Ainda assim, permito que a deixes comigo, refugiada no meu colo, enquanto tentas deixar de ser aquilo que só eu sei que tu és. Inútil, porque para isso acontecer eu teria que deixar tudo o que sou. E para isso acontecer, eu teria que saber o que sou, e não sei. Se eu não sei, tu também não sabes, porque somos iguais. Por isso, vamos tentando até conseguirmos um dia, não ser.
Até lá, chega de epitáfios. Primeiro, porque te iria desiludir. Eu seria incapaz de te diminuir de forma a caberes em tão poucas linhas. Segundo, porque eu vejo claramente em ti – e tu sabes tão bem- a luz, a vida e a jovialidade que não encontro em mim – e olha que eu já me virei do avesso e me desvirei tantas e tantas vezes. Finalmente, em terceiro e último lugar, chega de epitáfios porque senão eu terei que ir até aí te matar pessoalmente pra ver se acordas pra vida. E isso é um bocado chato porque, afinal, são nove horas de viagem e ninguém merece. És o meu tio, não me fales em epitáfios, que até me dói.
Ah, a música do Thi. Lembro-me dela, parece que foi ontem que a ouvi pela primeira vez. Parece que foi ontem muita coisa e continuará parecendo que foi ontem enquanto o tempo existir dentro de mim.
São 4.35 da manhã, acho que agora sim, consigo dormir para me erguer às 9. Tu já dormes, certamente, espero eu que sim. Dorme bem, tio. Acorda bem. Levanta-te. Abre a janela e manda todo o mundo prá puta que os pariu. Sorria, recupere as energias.


Só não te esqueças que o meu dedo mindinho está preso junto ao teu.


10 comentários:

Jean Valjean disse...

Sentiu-se como se tivesse acabado de ler uma carta de um suicida? Hm... talvez. Mas um suicida em potencial. Captou bem a intenção, sobrinha, mas ao menos por enquanto não vou praticar o ato, não. Não quero abandonar desde já o tugúrio.
Instinto protector: coisa de mãe, veja só! Quero proteção dessas asas grandes, sim!
Ora, como assim a cabeça de nada serve, se eu não estiver dentro? V. pega o pedacinho que restar da ossada, estica o braço e brada um 'to be or not to be', pô! Serve, sim!
Não sou imensidão, não, e é aí que você se engana, Cosette. Sou um reles ser-humano, mais nada. E não se deprecie! Adorei o jogo de lógica!!
Quanto ao seu epitáfio para mim, esse só me enalteceria, logo, não se preocupe com isso. Não é moldura, não, é quadro.
Jovialidade em mim? Falta de juízo, talvez... ou doido, feito King Lear no auge de suas crises... e você, sem jovialidade? Não acho, não. Inteligência e jovialidade é o que não lhe falta. Até dentes eu fiquei sabendo que tem!
Quanto a seus horários, você bem poderia ter lido isto num horário normal, né não? 4.35 da manhã??
De qualquer forma, agradeço pela atenção, pelo dedo mindinho e por haver juntado os bonecos lá, novamente. Ah, se não fosse o Vautour ter me avisado...
Abreijos, sobrinha!

Cosette disse...

Estaremos sempre, eternamente, em desacordo em tanta coisa. Sempre, até que a internet nos separe.

Cosette disse...

"Não se deprecie." Adoro quando você diz isso. Vindo de quem vem, dá-me logo vontade de rir.

Cosette disse...

"Até dentes eu fiquei sabendo que tem! " Ontem, quase que os perdi. Dei uma cabeçada tão forte na parede, que senti os meus dentes abanarem.

Cosette disse...

"agradeço (...) por haver juntado os bonecos lá, novamente."
Realmente, eu fico mais bonita quando tenho o meu tio ao lado. Sempre que os vejo, fico embasbacada: o boneco é a tua cara.

Cosette disse...

"por enquanto não vou praticar o ato," ?! Deixe-me corrigi-lo: " Fique tranquila, jamais praticarei o ato, sobrinha." Assim é que é.

Le Vautour disse...

Minina, como você está prolixa hoje! Quando seu tio vir isto, vai ficar embasbacado. E como você puxa o saco do cara! Ele é tão feio, mas tão feio, que... ah, acho que você já sabe a história.

Cosette disse...

Agora ri.
Numa prova de português, numa das questões li algo como : PRO LIXO.

Pensei: " Como que essa vaca de m* se atreve a escrever isso na minha prova? Que s#s5ush# do catano!"

E disse:
- Pro lixo, professora?

Ela pega na prova, ri e diz:
- Não Cosette, PROLIXA.

Quis morrer ali.

Cosette disse...

Vautour: Com certeza não estamos falando da mesma pessoa. Mas com certeza mesmo, certamente, sem sombra de dúvidas, indubitavelmente. O meu tio é um charme. Até as velhas bibliotecárias gostam dele. Se eu não fosse sobrinha, pegava.
Hahahahahaha

Jean Valjean disse...

Como assim, "se eu não fosse sobrinha, pegava"?? O abutre é ele e quem gosta de carne velha e em decomposição é você?
Arre!