terça-feira, 6 de julho de 2010

(IN)finito.



Pior do que a crise económica, é a crise moral. Ao contrário da primeira, esta é silenciosa. Ao contrário da primeira, a fome que a segunda provoca não é física, nem pode ser saciada com lacticínios. Ela tem a ver com o espírito. Espírito que controla a mente que, por sua vez, comanda o corpo - carne mergulhada em micróbios, vírus e secreções.

Em nós, existe dois tipos de deterioração: aquela que ocorre de fora para dentro - quando um corpo é abandonado, desprovido de cuidados, e antes mesmo dos órgãos deixarem de funcionar, as moscas, larvas e até mesmo animais selvagens o dilacera; E o apodrecimento ocorrido em sentido oposto. Este último, por sua vez, estou certa de que acontece com mais frequência. Ele não envolve larvas, nem se encontra necessariamente ligado aos meios mais pobres. O que é débil não é o corpo, mas a alma que é desnutrida. Não são os órgãos que deixam de funcionar, mas é o espírito que deixa de ter comando sobre a mente. E quando isso acontece, o nosso cérebro torna-se num albergue aberto a todos e quaisquer tipos de pensamentos, fazendo com que os nossos demos – outrora chicoteados, hoje algozes – façam a festa.

 A crise moral dá-se quando o nosso avesso se transmuta num campo de batalha. Quando aquilo que resta do nosso organismo desenvolve anti-corpos, tendo como objectivo a expulsão da podridão que alimentamos. Podridão que não deixa de ser aquilo que realmente somos, pois ela sempre lá existiu antes de nossa alma ser açoitada pelo lado mais dark dela mesma. Ou seja, somos nós contra nós mesmos. Nós com alma, nós sem alma, nós porventura desalmados. Desarmados. São os nossos valores universais – partindo da premissa de que somos todos pequenos universos voltados para dentro de si mesmos, e infinitos até encontrarmos o nosso princípio – lutando contra o lixo espacial que nos invade por todos os lados.

O espírito, quando devidamente são, funciona como uma peneira. Ou, então, como um abutre: recicla o que não presta, transformando o que é prejudicial em algo bom. A verdade é que ainda não conheci uma pessoa que nunca se tenha debatido com os seus próprios valores, ou se confrontado com a falta deles. Que não se tenha olhado ao espelho, e indagado o que era feito da alma. Ou então, em casos mais drásticos, em que tenha chegado tarde demais. Mas chegado aonde? Como foi dito, eu posso ter um pouco mais de metro e meio, mas de alguma maneira o meu universo é infinito. E quanto maior for o universo, mais difícil será encontrar o vértice no qual se iniciou a deterioração.

6 comentários:

Jean Valjean disse...

Pronto... de novo me deixou boquiaberto e tartamudeando sons guturais, sem conseguir expressar-me.
Concordo tanto, que nem sei como exprimir.
C'est ça, 'cazzu', I strongly agree!!

Cosette disse...

Ah, não exagere!Sabe porque te adoro? Porque você é o único que fica "boquiaberto e tartamudeando sons guturais" com os meus trolólós!

afonso rocha disse...

O único????????????????????
VOLTO MAIS TARDE!!!!!
Necessito urgente de um gin tonic!!!!!!!

Jean Valjean disse...

Opa, rolou um ciuminho aqui. Afonso, meu caro, não fique assim, pois os laços de sangue são insuperáveis. Logo depois de mim, você é o tio adotivo dela... acho. Depois ela confirma.
Abraço forte!

Cosette disse...

Já está arranjando uma maneira de se esquivar das responsabilidades, né? Tô vendo.

Velhinho Decadente disse...

Ah, mas eu também quero concorrer ao cargo de tio suplente. Uma mulher inteligente dessas, quem não quer ter por sobrinha?
Valjean, cachorrão? Você é o tio, e pronto. Antes do Afonso venho eu, e só depois, então, ele, que acabou de chegar - pelo que deve ser o suplente do suplente (ou seja: ele é o meu suplente, ok?).